Em Busca de Emprego

A situação anda difícil e, não bastasse estar desempregado, Juvenal ainda tinha que aturar as cobranças da esposa:

“Fica dormindo nessa rede enquanto eu cuido da casa.” O gato da casa, deitado a um canto, acordava com os ralhos da mulher. “E isso porque tá devendo dinheiro pra todo mundo. Tanto homem por aí e fui terminar com um lixo desses.”

“Olha como fala comigo, mulher”, dizia Juvenal enquanto se balançava na rede.“Mais dia, menos dia, eu me enfezo. E aí…”

“E aí o quê?” A mulher parava de varrer o chão por alguns segundos.“Tu não passa de um pamonha”.

“Cuidado, mulher…”

“Se não traz dinheiro, vai cuidar da casa. Anda”, e ela brandia a vassoura, “pega, vai varrer, vai…”

“Ficou doida? Homem que é homem não faz tarefa doméstica.”

“Homem que é homem traz dinheiro pra casa.”

“Emprego é pra gente com pouca inteligência, mulher. Gente simplória. Eu nasci pra coisa complicada.”

Mas a esposa continuou a aperrear. Para voltar a ter sossego, Juvenal decidiu procurar um emprego.

Depois de mandar seu currículo para todos os locais possíveis, algumas empresas começaram a ligar de volta, chamando-o para entrevistas.

A primeira foi em uma loja de artigos de informática.

“Desculpe, senhor Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz franzino com óculos, “mas o senhor não é qualificado o suficiente para a vaga”.

“Como assim? Eu tenho até faculdade”.

“Faculdade de Administração”.

“Onde eu aprendi gestão, organização, controle de estoque-“

“Somos uma loja de informática, senhor Juvenal. O senhor sabe o que é um chip de memória?”

Juvenal pensou por um segundo antes de falar:

“Tem a ver com batata frita?”

“Chip, senhor Juvenal. Não chips”.

“Ih, então não sei.”

“Memória RAM? Transístor? Hard drive?”

Juvenal pulou da cadeira. “Eu sei o que é um tablet! Juro!”

A segunda entrevista foi em uma revendedora de automóveis.

“Infelizmente, seu Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz de cabelo curto espetado, “o senhor é qualificado demais para a vaga”.

“E isso não é bom?”

“Precisamos, seu Juvenal, de vendedores que não sejam muito qualificados. Ou eles ficam aqui só alguns meses, até arranjarem emprego em outro lugar.”

“Não dá pra dar um jeito?”

“Com essa faculdade de Administração no seu currículo, seu Juvenal, fica difícil dar um jeito…”

Para a terceira entrevista, em uma mineradora,  Juvenal tirou do currículo a menção à faculdade.

“Seu currículo é impressionante”, disse a entrevistadora, uma morena de corpo bem-feito vestida em um terninho. “Mas pra ter certeza de que você é o que procuramos, eu preciso fazer algumas perguntas.”

“À vontade.”

“O senhor e sua mulher se dão muito bem?”

“Nós nascemos um pro outro.”

“Você pode ser sincero conosco, Juvenal”.

“Estou sendo, moça.”

“E o senhor é financeiramente estável? Ou tem dívidas?”

“Não devo nada a ninguém, moça.”

“Bem, neste caso não há mais o que pensar”, ela disse, fechando a pasta sobre a mesa.

“O emprego é meu?” Juvenal sorriu, já antecipando a cara da esposa assim que ele contasse a nova.

“Não”.

“Não?”

“Seu Juvenal, mineração  é um emprego muito pesado.”

“Imagino.”

“Ao longo dos anos, descobrimos que só permanecem nele dois tipos de empregados.”

“Quais?”

“O que estão em crise no casamento, e que por isso não querem ficar muito tempo em casa. Ou os que estão endividados. Nenhum dessas situações é seu caso.”

“Bem”, disse Juvenal, disposto a abrir o jogo, “na verdade-”

Antes que ele concluísse, a entrevistadora se levantou da cadeira e, sorrindo, estendeu-lhe a mão.

“Você é um exemplo de vida feliz, Juvenal. Assim que sair daqui, chegará em casa e sua esposa estará à espera, com o jantar pronto, cheio de carinho e amor. Parabéns.”

Assim que a esposa soube que Juvenal voltava de mais uma entrevista sem emprego, tentou atingi-lo como um copo de vidro. Ele se desviou e o copo bateu na parede, espatifando-se.

“Homem inútil. Bem que mamãe me avisou. Pois hoje vai ficar sem jantar, que é pra aprender.”

Nisso, algo mudou na fisionomia de Juvenal. O cenho franziu, os lábios se contraíram  um contra o outro.

Por que, pensou, submetia-se a isso? Ele, o dono da casa? Aquela megera pensava que era fácil achar um emprego em meio à crise? Estava na hora de ela aprender. Sim, ele iria ensiná-la. E agora mesmo.

Cerrando os punhos, ele caminhou rumo à esposa, a passo firme, decidido. A mulher recuou um, dois passos, até ser obrigada a parar com as costas rente à parede da cozinha.

Ele se aproximou dela. Ela fechou os olhos, esperando pelo bofete. Até o gato deles, parecendo prever o pior, correu para o quintal pela porta aberta da cozinha.

Então, Juvenal arrancou o avental da esposa e, colocando-o nele próprio, aproximou-se do fogão, em cujas panelas o jantar estava em preparo.

“A partir de hoje, mulher, eu cuido da casa e você trabalha. Esse negócio de emprego é complicado demais pra mim.”


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Meu amigo Roller Coaster

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Deixem que eu lhes conte do meu amigo Roller Coaster.

Claro, começo pelo nome. “Roller coaster” é a palavra em inglês para “montanha-russa”. Mas no caso de meu amigo, ela tem outro sentido. Na verdade, não é o nome dele de fato. É um apelido que ele escolheu para si. A opção por essa palavra, me disse o próprio, foi porque ela remete, de modo onomatopaico (meu amigo tem uma fina sensibilidade literária), ao inseto conhecido popularmente como rola bosta.

Trata-se do escaravelho, na verdade. Tem esse apelido porque é comum vê-lo transportando fezes sólidas, de bois, cavalos, carneiros etc. O movimento dele, aliás, lembra de fato uma montanha-russa: ele vai rolando as fezes, e muitas vezes elas caem encosta abaixo; mas o intrépido rola bosta sempre as alcança de novo.

Escolher como apelido o nome de um inseto exótico assim é esquisito, mesmo para um hipster, como meu amigo. Quando lhe perguntei o porquê, ele me explicou: o rola bosta ajuda na preservação do solo. Isso mesmo, esse pequeno inseto, quem diria, tem um papel ecológico.

Esqueci de dizer que meu amigo Roller Coaster, como todo hipster, não mede esforços para impedir o aquecimento global. Prega a favor de uma sociedade sem consumo de carnes – afinal, o gado precisa de muita área verde para pastar. Defende as energias renováveis. Assiste ao documentário do Al Gore toda semana. Afinal, nenhum hipster (ou rola bosta) que se preze irá jamais se omitir da missão de salvar nosso planeta.

Curiosamente, meu amigo Roller Coaster vive em churrascarias de rodízio. E dirige um carro a gasolina. Um daqueles grandes, que consomem muito combustível, mas impressionam as mulheres.

Algum desavisado o chamará de hipócrita. Eu no entanto sei a verdade: meu amigo é humilde demais para tentar se sobrepor aos que, desprovidos da mesma sabedoria que ele, continuam, dia a dia, a destruir nosso planeta. Ele sabe que é preciso ser tolerante com as limitações alheias. Assim, força-se a viver como os demais, numa tentativa de compreendê-los, estimá-los, olhá-los em um mesmo nível, e não acima – tocante exercício de empatia que só aumenta minha já grandiosa admiração por ele.

Que meu amigo, apesar dessa humildade, seja superior aos elementos médios da espécie humana, tive-o prova quando ele resolveu, em definitivo, a polêmica que até então dividia a comunidade científica: a de saber se o aquecimento global é causado, ou não, por ação humana. Na verdade, essa polêmica continua – mas só porque os cientistas são arrogantes demais para consultar meu amigo Roller Coaster. Tivessem-no feito, e eles lhes diria, sem sombra de dúvida, sem um momento sequer de hesitação, que o aquecimento global é causado, sim, por ação humana. E quem diz o contrário, acrescentaria, é um imbecil.

Um dia eu perguntei a meu amigo Roller Coaster como ele, um publicitário, tinha conseguido resolver de uma vez por todas uma questão científica tão complexa. Estranhamente, ele mudou de assunto. Creio que meu amigo seja generoso demais para mostrar junto a mim uma cultura científica que, de tão vasta, e ainda mais conquistada de maneira autodidata, certamente me humilharia.

De fato, por mais que eu odeie admitir, eu o invejo. Por sua cultura científica. E mais ainda mais por sua bravura moral, da qual agora faço questão de falar.

Quantos ecologistas conseguem, engolindo seus escrúpulos, penetrar no campo adversário – como meu amigo fez? Ele, que não só trabalha em uma empresa de mineração, mas tem lá um cargo de chefia? Ele, que em nome de um bem maior – a presença estratégica no campo inimigo -, aceita o fardo de trabalhar, dia a dia, contra suas próprias convicções?

Eu imagino o quanto meu amigo sofre, todo fim de mês, quando cai em sua conta bancária o salário ganho às custas da destruição do solo – o mesmo solo pelo qual ele e o rola bosta tanto lutam. O quão sujo ele não deve se sentir, quando usa esse dinheiro para pagar o aluguel de sua cobertura na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou a viagem anual ao exterior, ou os apetrechos da bicicleta importada. Essa tristeza, essa angústia deve consumi-lo tanto que nenhum de nós pode criticá-lo por se entregar aos vinhos (entregues por um clube de assinatura), ao uísque, às mobílias caras, à comida gourmet. A vida de meu amigo não é fácil, quem sou eu (ou você, leitor) para julgar alguém que tanto se sacrifica pela humanidade?

De minha parte, só posso admirar meu amigo Roller Coaster. Assim como o inseto que lhe dá o apelido, ele aceita com hedonismo o fardo de rolar, dia após dia, a bosta dos outros.