O mergulho de Stephen King na escuridão

Big Driver

Maria Bello e Will Harris em cena do filme para TV Big Driver, baseado em uma das novelas do livro. Foto: Chris Reardon – © 2014 – Lifetime

Nas novelas reunidas em Full Dark, No Stars (EUA: Gallery Books, 2011; no Brasil: “Escuridão total sem estrelas”), Stephen King traz protagonistas que realizam atos grotescos. No entanto, o autor nos consegue fazer sentir empatia por esses personagens, à medida que percebemos que a linha que separa o bem do mal pode ser fina como cetim.

Isso não é novo na carreira de King. Na verdade, é um recurso cuja eficácia o autor defende em seu livro sobre escrita de ficção, On Writing: dar um “nó” na cabeça do leitor, desafiá-lo em suas convicções, forçá-lo a entender motivações que o desafiam.

1922 conta a história de um fazendeiro que mata a esposa para herdar terras de propriedade dela. Ele consegue o intento, mas a partir daquele momento uma série de percalços passa a atingi-lo. King descreve o mergulho do protagonista no desespero como uma punição divina pelo pecado cometido. O inferno em vida do personagem — provável presságio do que sofrerá após a morte — acaba por nos sensibilizar, numa empatia tão surpreendente quanto incômoda.

1922

Thomas Jane em 1922, produção da Netflix baseada em uma das novelas do livro

Big Driver trata de uma mulher estuprada em uma rodovia. Escritora policial, ela inicia uma investigação para localizar o estuprador. No entanto, a personagem não busca a Justiça; busca vingança, e isso a levará a caminhos que ela jamais imaginara. À medida que o conto prossegue, a protagonista descobre uma força interior que nem desconfiava ter. Enquanto isso, pegamo-nos cada vez mais a torcer por ela.

Fair Extension recria a clássica história do pacto com o demônio. O protagonista, um pai de família fracassado e com doença terminal, tem a chance de mudar sua vida após se encontrar com um estranho vendedor de estrada. O benefício porém vem com um preço: dar o nome de alguém para quem as desgraças dele possam ser transferidas. Ao conhecermos melhor o personagem, e o homem a quem ele repassa a má-sorte, passamos a ter a incômoda sensação de que o demônio talvez seja um fator de equilíbrio na ordem humana (espero que só algumas vezes…).

A Good Marriage mostra uma esposa apaixonada que descobre por acidente um lado tenebroso do marido. Agora ela precisa escolher entre a decisão correta, do ponto de vista moral, e a proteção dos filhos. O dilema da protagonista termina em uma decisão que a maioria de nós condenaria, mas talvez a tomássemos sob as mesmas circunstâncias.

Full Dark, No Stars mergulha na escuridão humana, nos atos abomináveis a que às vezes somos levados. Digo “somos” porque os protagonistas neste livro não são psicopatas ou mesmo cruéis: são homens e mulheres comuns, com quem nos identificamos e de cuja convivência fictícia saímos com a perturbadora consciência de que o mal nem sempre é tão fácil de evitar quanto aprendemos quando crianças.

 

 

 

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Uma vocação desperdiçada

O Rio é Tão Longe: Cartas a Fernando SabinoO Rio é Tão Longe: Cartas a Fernando Sabino by Otto Lara Resende

My rating: 4 of 5 stars

Nas cartas que Otto Lara Resende enviou a Fernando Sabino ao longo da vida (O Rio é tão Longe: cartas a Fernando Sabino. Introdução e notas de Humberto Werneck. São Paulo: Companhia das Letras, 2011), fica claro que o autor do romance “O Braço Direito” foi um ficcionista genuíno, mas que se desviou de sua vocação.

De fato, romancista e contista de alto calibre, Otto Lara Resende escreveu em vida, no entanto, poucas obras (cinco livros de contos e um romance). Isto se deve — e esta epistolografia atesta-o — tanto a seu perfeccionismo quanto à sua dispersão em vários afazeres profissionais.

No primeiro caso, a busca da obra perfeita, bem-acabada, levava-o a retardar a publicação de material, a ponto de Fernando Sabino aconselhá-lo: “é um livro, não tem que ser o livro, diabo!”

No segundo caso, o excesso de compromissos profissionais assumidos deixava-lhe pouco tempo disponível para o individualismo solitário da carreira literária. Afinal, a criação literária é antes de tudo um ato individual, isolado; a contribuição de um escritor para a sociedade só é possível quando ele se isola dessa mesma sociedade — numa contradição mais aparente que real.

Como o próprio Otto Lara Resende reconhecia, ele vivia mais para os outros que para si. “(…) Vivo crucificado em mil probleminhas alheios, causas chatas, aquela minha vocação de ser devorado pelos outros”, escrevia de Lisboa, a 15 de março de 1969 (pg.308). Ele chega a celebrar sua recusa em emprestar dinheiro a alguém, mas confessa que isso lhe fez dormir mal e ter remorsos. Em carta de 22 de maio de 1969, confessava: “É o velho problema: não querendo (ou não sabendo) dizer não, querendo satisfazer ao interlocutor, sujeito à pressão, caio numa aparente perplexidade e hesitação.”(pág.331).

Essa dificuldade de dizer “não” fez com que assumisse quantidade impressionante de atividades (jornalista, diretor de banco, adido cultural, procurador, professor, advogado), que relegaram a literatura às horas mortas do cansaço e da sonolência.

Otto Lara Resende parecia ter noção dessa vida desperdiçada, embora tentasse disfarçar essa consciência por meio do bom humor. “Meu Cemitério Literário!”, escrevia a 11 de junho de 1969. “É maior do qualquer cemitério de automóveis da Califórnia” (pág. 354). As cartas são cheias de comentários sobre projetos abandonados, procrastinação, adiamentos, num escritor em quem o conforto material advindo dos cargos trabalhou mais contra a vocação literária que a favor — armadilha do acomodamento burguês contra a qual Mário de Andrade alertara Fernando Sabino, em outra correspondência, mais famosa.

Curiosamente, a mesma epistolografia que desvela os motivos pelos quais Otto Lara não se tornou o ficcionista que almejava ser acaba por situá-lo como escritor de peso. Escritas em um português que dialoga com a linguagem falada sem descuidar da gramática e das nuances da língua culta, as cartas reunidas neste livro comprovam o que os amigos de Otto diziam dele: que seu maior talento era a epistolografia. O perfeccionismo do escritor, claro, levou-0 a rejeitar a proposta de Fernando Sabino, ainda nos 1960, de publicar sua correspondência. Décadas depois, o projeto de edição preparado por Sabino acabou publicado pela Companhia das Letras.

Se em vida o profissional Otto Lara Resende venceu o escritor, essa correspondência póstuma não deixa de ser, assim, pequena vingança do escritor contra o profissional. Escritores têm este privilégio, o de continuarem a luta mesmo depois de mortos — ainda que se trate, como no caso aqui, de um conflito consigo mesmo: a faceta criativa versus a profissional, no interior de um homem cuja disponibilidade excessiva aos outros acabou por soterrar a ânsia individual da criação literária.

 

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