Jantar a dois

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Horácio tentava decifrar nas feições de Karen se ela gostara do jantar.

Há alguns dias ela havia sugerido, para a ocasião especial, um restaurante tailandês recém-aberto na Varjota. Fora Horácio que sugerira o restaurante de massas em que estavam agora, na Beira-Mar. Ela demorara alguns segundos, mas acabara por concordar.

Mas no carro, há pouco, viera calada, respondendo às perguntas dele com monossílabos. Na hora de pedir o prato, demorara poucos segundos, quando o comum é que fizesse várias perguntas ao garçom antes de decidir.

À mesa, Karen passara a noite calada. Respondia “sim” ou “não” a tudo, sem comentários, sem parecer prestar atenção. Sabendo o quanto ela apreciava paisagens, Horácio reservara a mesa mais perto do mar, junto à vidraça, através da qual se via as ondas quebrando-se nas rochas. Mas ela só olhara o oceano uma única vez, e por um segundo, e só quando ele mencionou a vista.

Karen não se engajara na conversa nem mesmo quando, em meio à refeição, Horácio dera a notícia: conseguira financiamento para o novo apartamento. Uma cobertura no Cocó, que haviam escolhido juntos — ela entusiasmada com cada cômodo, cada recanto, cada porta. Dia sim, dia não, falava sobre o apartamento. Agora, perante à notícia, ela mal conseguia esboçar um sorriso.

E se ela não tivesse gostado da comida? pensou Horácio.

Impossível, descartou em seguida. Ela pedira espaguete à marinara, um dos pratos preferidos dela. E o chef do local era impecável; Horário sabia disso porque recolhera indicações dos amigos e, há alguns dias, fora ele próprio ali e pedira um prato só para avaliar a qualidade.

Então, por que Karen comera em silêncio, cabeça baixa, garfadas lentas? Por que seus olhos pareciam enxergar através de Horácio? Por que, nos monossílabos, a voz dela soava fraca, como se doente, e não no tom vibrante que tanto chamara atenção dele quando a conhecera, então atendente de loja, há exatos cinco anos — data que comemoravam ali, agora?

— Querida, está tudo bem?

Assim que ouviu a pergunta, Karen ergueu a cabeça. Pela primeira vez desde o começo da noite, os olhos dela pareciam fitar de fato Horácio — e pareciam de súbito vivos, brilhosos, como os de um gato frente a uma presa.

— Por que eu não estaria bem?

Horácio pensou bem antes de responder, mas demorou menos de um segundo. Três anos de casamento haviam-no ensinado a pensar rápido.

— Você está calada a noite inteira.

Ela remexeu nos talheres sobre a borda do prato vazio, antes de dizer:

— Eu só estou pensando…

Fitaram-se por alguns segundos, sem nada dizer.

A chegada do cumim para recolher os pratos deu a Horácio mais tempo para pensar o que ocorria com ela.

Talvez a escolha do restaurante?

Será que ela ficara chateada porque ele recebera a informação do financiamento pela manhã — mas decidira só falar à noite, para surpreendê-la?

Ou ela por algum motivo já não se empolgava com o novo apartamento? Não seria a primeira nem a última vez que ela mudaria de ideia em algo importante; ela sempre dizia que era importante saber desapegar.

Continuaram ambos assim, em silêncio, enquanto o rapaz punha pratos, talheres, guardanapos e copos sujos sobre uma bandeja de prata, carregando-a então, por entre as demais mesas cobertas por toalhas brancas, rumo à cozinha.

Depois de mais alguns segundos de silêncio, Horácio decidiu voltar à carga:

— No que você pensa tanto, querida?

Com a mão direita, Karen tirou um palito do paliteiro à frente e passou a remexê-lo entre os dedos indicador e anular. Olhos fixos em Horácio, parecia pensar em cada palavra quando disse:

— Lembra que eu te falei… que, quando criança, eu e meus irmãos… nós tínhamos um carneirinho?

Por que ela pensava nisso agora? perguntava-se Horácio. Afinal, Karen nem gostava de lembrar a infância. Quase nunca falava dos pais, que, sem dinheiro, haviam entregue ela e os irmãos aos cuidados dos tios. Ela mal falava dos irmãos, que, mais velhos, haviam-na abandonado, indo para São Paulo, deixando-a com os tios; com pouco dinheiro em casa, ela tivera que trabalhar cedo, sem muito estudo — até o dia em que ele, Horácio, conhecera-a, levando-a então ao altar, dando-lhe tudo, mudando-lhe a vida.

Mesmo sem entender, Horácio respondeu:

— Você disse que criaram o carneiro. No quintal.

— Nós dávamos leite na mamadeira pra ele. Banhávamos ele. Dávamos água.

— Até que ele cresceu…

— Aí ele cresceu e fugiu. Um dia eu o vi, em um rebanho. Tentei abraçar ele, e ele me atacou. Tive que levar pontos.

— Querida, por que voc–

— Desde aquele dia eu me pergunto: porque ele se esqueceu de nós? Que havíamos dado tudo a ele?

— Talvez — Horácio tentava esconder o constrangimento de ter uma conversa séria sobre isso — vocês não tenham dado tudo.

— Como não demos?

— Vocês deram tudo que puderam. Mas talvez ele quisesse mais.

— Como o quê?

Parecia haver agressividade no tom de voz dela. Horácio já se arrependia de ter embarcado na conversa.

— Não sei, querida. Talvez, comunicação.

— “Comunicação?”

— Ele cresceu, foi atrás de outros carneiros, com que ele pudesse interagir.

— E isso é correto? Trair quem lhe deu quase tudo porque faltou uma coisa?

— Como você mesmo diz, querida, é importante saber desapegar.

Ela entreabriu a boca. Parecia pronta a dizer algo. Então fechou os lábios, mordendo-os. Baixou a cabeça, ergueu-a, baixou-a de novo e, finalmente, erguendo-a, abriu um sorriso que lhe mostrou os dentes brancos, brilhosos sob a luz dos lustres no teto. Quando falou, foi no tom de voz vibrante de que Horácio tanto gostava:

— Fale mais do financiamento, meu amor.

Sorrindo de volta, Horácio pôs-se a falar. No íntimo, vangloriava-se de ter tirado a esposa do mau humor. Percebia, com orgulho, que ninguém mais do que ele conhecia sua mulher.

FIM

 

 

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