Jantar a Dois

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Horácio tentava decifrar nas feições de Karen se ela gostara do jantar.

Há alguns dias ela havia sugerido, para a ocasião especial, um restaurante tailandês recém-aberto na Varjota. Fora Horácio que sugerira o restaurante de massas em que estavam agora, na Beira-Mar. Ela demorara alguns segundos, mas acabara por concordar.

Mas no carro, há pouco, viera calada, respondendo às perguntas dele com monossílabos. Na hora de pedir o prato, demorara poucos segundos, quando o comum é que fizesse várias perguntas ao garçom antes de decidir.

À mesa, Karen passara a noite calada. Respondia “sim” ou “não” a tudo, sem comentários, sem parecer prestar atenção. Sabendo o quanto ela apreciava paisagens, Horácio reservara a mesa mais perto do mar, junto à vidraça, através da qual se via as ondas quebrando-se nas rochas. Mas ela só olhara o oceano uma única vez, e por um segundo, e só quando ele mencionou a vista.

Karen não se engajara na conversa nem mesmo quando, em meio à refeição, Horácio dera a notícia: conseguira financiamento para o novo apartamento. Uma cobertura no Cocó, que haviam escolhido juntos — ela entusiasmada com cada cômodo, cada recanto, cada porta. Dia sim, dia não, falava sobre o apartamento. Agora, perante à notícia, ela mal conseguia esboçar um sorriso.

E se ela não tivesse gostado da comida? pensou Horácio.

Impossível, descartou em seguida. Ela pedira espaguete à marinara, um dos pratos preferidos dela. E o chef do local era impecável; Horário sabia disso porque recolhera indicações dos amigos e, há alguns dias, fora ele próprio ali e pedira um prato só para avaliar a qualidade.

Então, por que Karen comera em silêncio, cabeça baixa, garfadas lentas? Por que seus olhos pareciam enxergar através de Horácio? Por que, nos monossílabos, a voz dela soava fraca, como se doente, e não no tom vibrante que tanto chamara atenção dele quando a conhecera, então atendente de loja, há exatos cinco anos — data que comemoravam ali, agora?

— Querida, está tudo bem?

Assim que ouviu a pergunta, Karen ergueu a cabeça. Pela primeira vez desde o começo da noite, os olhos dela pareciam fitar de fato Horácio — e pareciam de súbito vivos, brilhosos, como os de um gato frente a uma presa.

— Por que eu não estaria bem?

Horácio pensou bem antes de responder, mas demorou menos de um segundo. Três anos de casamento haviam-no ensinado a pensar rápido.

— Você está calada a noite inteira.

Ela remexeu nos talheres sobre a borda do prato vazio, antes de dizer:

— Eu só estou pensando…

Fitaram-se por alguns segundos, sem nada dizer.

A chegada do cumim para recolher os pratos deu a Horácio mais tempo para pensar o que ocorria com ela.

Talvez a escolha do restaurante?

Será que ela ficara chateada porque ele recebera a informação do financiamento pela manhã — mas decidira só falar à noite, para surpreendê-la?

Ou ela por algum motivo já não se empolgava com o novo apartamento? Não seria a primeira nem a última vez que ela mudaria de ideia em algo importante; ela sempre dizia que era importante saber desapegar.

Continuaram ambos assim, em silêncio, enquanto o rapaz punha pratos, talheres, guardanapos e copos sujos sobre uma bandeja de prata, carregando-a então, por entre as demais mesas cobertas por toalhas brancas, rumo à cozinha.

Depois de mais alguns segundos de silêncio, Horácio decidiu voltar à carga:

— No que você pensa tanto, querida?

Com a mão direita, Karen tirou um palito do paliteiro à frente e passou a remexê-lo entre os dedos indicador e anular. Olhos fixos em Horácio, parecia pensar em cada palavra quando disse:

— Lembra que eu te falei… que, quando criança, eu e meus irmãos… nós tínhamos um carneirinho?

Por que ela pensava nisso agora? perguntava-se Horácio. Afinal, Karen nem gostava de lembrar a infância. Quase nunca falava dos pais, que, sem dinheiro, haviam entregue ela e os irmãos aos cuidados dos tios. Ela mal falava dos irmãos, que, mais velhos, haviam-na abandonado, indo para São Paulo, deixando-a com os tios; com pouco dinheiro em casa, ela tivera que trabalhar cedo, sem muito estudo — até o dia em que ele, Horácio, conhecera-a, levando-a então ao altar, dando-lhe tudo, mudando-lhe a vida.

Mesmo sem entender, Horácio respondeu:

— Você disse que criaram o carneiro. No quintal.

— Nós dávamos leite na mamadeira pra ele. Banhávamos ele. Dávamos água.

— Até que ele cresceu…

— Aí ele cresceu e fugiu. Um dia eu o vi, em um rebanho. Tentei abraçar ele, e ele me atacou. Tive que levar pontos.

— Querida, por que voc–

— Desde aquele dia eu me pergunto: porque ele se esqueceu de nós? Que havíamos dado tudo a ele?

— Talvez — Horácio tentava esconder o constrangimento de ter uma conversa séria sobre isso — vocês não tenham dado tudo.

— Como não demos?

— Vocês deram tudo que puderam. Mas talvez ele quisesse mais.

— Como o quê?

Parecia haver agressividade no tom de voz dela. Horácio já se arrependia de ter embarcado na conversa.

— Não sei, querida. Talvez, comunicação.

— “Comunicação?”

— Ele cresceu, foi atrás de outros carneiros, com que ele pudesse interagir.

— E isso é correto? Trair quem lhe deu quase tudo porque faltou uma coisa?

— Como você mesmo diz, querida, é importante saber desapegar.

Ela entreabriu a boca. Parecia pronta a dizer algo. Então fechou os lábios, mordendo-os. Baixou a cabeça, ergueu-a, baixou-a de novo e, finalmente, erguendo-a, abriu um sorriso que lhe mostrou os dentes brancos, brilhosos sob a luz dos lustres no teto. Quando falou, foi no tom de voz vibrante de que Horácio tanto gostava:

— Fale mais do financiamento, meu amor.

Sorrindo de volta, Horácio pôs-se a falar. No íntimo, vangloriava-se de ter tirado a esposa do mau humor. Percebia, com orgulho, que ninguém mais do que ele conhecia sua mulher.

FIM

 

 

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Uma vocação desperdiçada

O Rio é Tão Longe: Cartas a Fernando SabinoO Rio é Tão Longe: Cartas a Fernando Sabino by Otto Lara Resende

My rating: 4 of 5 stars

Nas cartas que Otto Lara Resende enviou a Fernando Sabino ao longo da vida (O Rio é tão Longe: cartas a Fernando Sabino. Introdução e notas de Humberto Werneck. São Paulo: Companhia das Letras, 2011), fica claro que o autor do romance “O Braço Direito” foi um ficcionista genuíno, mas que se desviou de sua vocação.

De fato, romancista e contista de alto calibre, Otto Lara Resende escreveu em vida, no entanto, poucas obras (cinco livros de contos e um romance). Isto se deve — e esta epistolografia atesta-o — tanto a seu perfeccionismo quanto à sua dispersão em vários afazeres profissionais.

No primeiro caso, a busca da obra perfeita, bem-acabada, levava-o a retardar a publicação de material, a ponto de Fernando Sabino aconselhá-lo: “é um livro, não tem que ser o livro, diabo!”

No segundo caso, o excesso de compromissos profissionais assumidos deixava-lhe pouco tempo disponível para o individualismo solitário da carreira literária. Afinal, a criação literária é antes de tudo um ato individual, isolado; a contribuição de um escritor para a sociedade só é possível quando ele se isola dessa mesma sociedade — numa contradição mais aparente que real.

Como o próprio Otto Lara Resende reconhecia, ele vivia mais para os outros que para si. “(…) Vivo crucificado em mil probleminhas alheios, causas chatas, aquela minha vocação de ser devorado pelos outros”, escrevia de Lisboa, a 15 de março de 1969 (pg.308). Ele chega a celebrar sua recusa em emprestar dinheiro a alguém, mas confessa que isso lhe fez dormir mal e ter remorsos. Em carta de 22 de maio de 1969, confessava: “É o velho problema: não querendo (ou não sabendo) dizer não, querendo satisfazer ao interlocutor, sujeito à pressão, caio numa aparente perplexidade e hesitação.”(pág.331).

Essa dificuldade de dizer “não” fez com que assumisse quantidade impressionante de atividades (jornalista, diretor de banco, adido cultural, procurador, professor, advogado), que relegaram a literatura às horas mortas do cansaço e da sonolência.

Otto Lara Resende parecia ter noção dessa vida desperdiçada, embora tentasse disfarçar essa consciência por meio do bom humor. “Meu Cemitério Literário!”, escrevia a 11 de junho de 1969. “É maior do qualquer cemitério de automóveis da Califórnia” (pág. 354). As cartas são cheias de comentários sobre projetos abandonados, procrastinação, adiamentos, num escritor em quem o conforto material advindo dos cargos trabalhou mais contra a vocação literária que a favor — armadilha do acomodamento burguês contra a qual Mário de Andrade alertara Fernando Sabino, em outra correspondência, mais famosa.

Curiosamente, a mesma epistolografia que desvela os motivos pelos quais Otto Lara não se tornou o ficcionista que almejava ser acaba por situá-lo como escritor de peso. Escritas em um português que dialoga com a linguagem falada sem descuidar da gramática e das nuances da língua culta, as cartas reunidas neste livro comprovam o que os amigos de Otto diziam dele: que seu maior talento era a epistolografia. O perfeccionismo do escritor, claro, levou-0 a rejeitar a proposta de Fernando Sabino, ainda nos 1960, de publicar sua correspondência. Décadas depois, o projeto de edição preparado por Sabino acabou publicado pela Companhia das Letras.

Se em vida o profissional Otto Lara Resende venceu o escritor, essa correspondência póstuma não deixa de ser, assim, pequena vingança do escritor contra o profissional. Escritores têm este privilégio, o de continuarem a luta mesmo depois de mortos — ainda que se trate, como no caso aqui, de um conflito consigo mesmo: a faceta criativa versus a profissional, no interior de um homem cuja disponibilidade excessiva aos outros acabou por soterrar a ânsia individual da criação literária.

 

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As Lições do Passado

 

Qualquer um que viva na sociedade contemporânea tem conhecimento de uma de suas mais acentuadas tendências: o fascínio pelo moderno, pelo novo — por tudo, enfim, que seja up-to-date.  

Basta reparar, por exemplo, no uso da tecnologia: antes restrita a círculos profissionais, agora é item de uso ordinário.

Esse fascínio pelo novo também se manifesta no culto à juventude, tão presente na cultura de massa e na onda fitness, e que se baseia na suposição de uma idade mágica entre os 20 e os 30 anos.

É fato reconhecido, aliás, que o adolescente e jovem adulto médio dos dias de hoje conhece escassamente o passado, mesmo em suas áreas de interesse. O tempo dos jovens é o tempo da cultura de massa, das redes sociais, do Youtube — nos quais as tendências e os ídolos mudam em poucos meses ou mesmo semanas.

Compare-se os filmes dos 1970 e os de hoje: antes, os protagonistas (e os atores que os interpretavam) tinham em sua maioria mais de 35 anos; hoje predomina o protagonista jovem adulto, adolescente ou criança.

O fascínio pelo novo não se limita porém à tecnologia ou cultura. No debate público, propostas que prometem “avançar” a sociedade — legalização do aborto e das drogas, criminalização de opiniões tidas como preconceituosas etc. – são cercadas por aura quase mística, e quem ousa apontar equívocos em tais projetos é acusado de “reacionário” e, termo mais em moda nesses dias radicais, “fascista”. Policy makers se sentem lisonjeados ao serem chamados de “progressistas”, enquanto rejeitam como ofensivo o termo “conservador”.

No debate público, os formadores de opinião concedem aos progressistas o benefício das boas intenções — enquanto lançam aos conservadores a suspeição imediata de interesses ocultos, até que provem o contrário.

Esse culto ao novo (como acontece com cultos em geral) ampara-se na simplificação excessiva. Desconsidera as nuanças. Lança o facho de luz sobre um único aspecto, relegando tudo o mais às trevas.

Mas, a verdade oculta nas sombras é: em tudo devemos algo ao passado. Nossa língua, nosso modelo político, nossa religião…. Em cada um de nós estão presentes os traços gerais da cultura em que nascemos, crescemos e vivemos — e todos remetem ao passado.

A Psicologia inclusive reconhece que a história familiar, mesmo a de gerações pregressas ao nascimento do indivíduo, exerce influência importante sobre a conduta humana. Até mesmo o caráter de um povo, ou seja, seus traços distintivos, remete à sua formação e evolução — o que pode ser comprovado na leitura atenta das literaturas nacionais. Nada é plenamente compreensível a partir do atual, do imediato; mas somente com visão retrospectiva, a mesma que o homem moderno minimiza ou mesmo rejeita.

O homem moderno que menospreza o passado é como um peixe que menosprezasse a água que o rodeia. Agindo assim, retrocede — embora se considere evoluído e rotule os que prestam contas ao passado como “conservadores” ou “reacionários”. Mal sabe ele (sequer suspeita) que menosprezar o passado, o antigo, o arcaico é perder aquilo que o ser humano tem de único, se comparado às demais espécies animais.

De fato, somente a espécie humana é capaz de registrar suas experiências e transmiti-las a outrem. Este senso histórico, por assim dizer, ajuda-a não repetir os mesmos erros. O acúmulo de experiências permite ainda realizações grandiosas demais para uma única geração. Dizemos que grandes inventores criaram artefatos ou elucidaram processos da natureza — mas o trabalho deles só foi possível por conta dos registros acumulados pelos que os antecederam. Não é exagero considerar o senso histórico como uma das vantagens humanas decisivas em relação às demais espécies animais.

O repúdio ao passado é o repúdio a esse legado humano único: o acúmulo de lições e valores por meio da História. Ao tentar suplantar o passado, relegando-o como se ele jamais existira, o moderno ou progressista opta — para usarmos uma figura de Ortega y Gasset — por descer e agir como orangotango. É uma postura anti-humanista, obscurantista.

Como uma postura assim pode ter se disseminado na sociedade brasileiro, a ponto de entranhar-se no debate público?

Isso só foi possível porque a base de valores tradicionais de nossa sociedade já está em alguma medida enfraquecida — já por processos naturais de modernização, já (e isso é o mais grave) por processos implementados deliberadamente por agentes de mudança social. Estes últimos, imbuídos de Marxismo cultural, estão a serviço de uma “guerra cultural”, cujo objetivo é a destruição dos valores greco-cristãos sobre os quais nossa sociedade foi constituída.

Esses agentes do progresso, com presença na educação e nas políticas sociais, constroem um passado imaginário, falsificado, que não merece estudo sério ou reconhecimento. Expostas a isso, as novas gerações crescem num presente constante, incapazes sequer de imaginarem todo o universo de referências que lhe foge do alcance. Se os jovens de ontem eram ingênuos por acreditarem numa História repleta de heróis e seus grandes feitos, os de hoje são cínicos justamente por não acreditarem mais nisso. Acham-se “críticos” aos acreditaram (de modo ingênuo) numa História em que uma burguesia onipresente impediu, a todo instante e a qualquer propósito, a Pasárgada prometida pelo marxismo, essa religião de ateus.

Num contexto assim, no Brasil de hoje, a quem cabe defender o legado humano?

A nós, conservadores.

Afinal, o conservador, livre da moda de menosprezar o passado, está apto a incorporá-lo no presente, reforçando o papel do homem civilizado e mostrando-se assim à altura do legado compartilhado pela sociedade humana.

No Brasil de hoje, ser conservador é a atitude mais digna que um ser humano pode ter.

Minto: é a única atitude digna que um ser humano pode ter.

Em Busca de Emprego

A situação anda difícil e, não bastasse estar desempregado, Juvenal ainda tinha que aturar as cobranças da esposa:

“Fica dormindo nessa rede enquanto eu cuido da casa.” O gato da casa, deitado a um canto, acordava com os ralhos da mulher. “E isso porque tá devendo dinheiro pra todo mundo. Tanto homem por aí e fui terminar com um lixo desses.”

“Olha como fala comigo, mulher”, dizia Juvenal enquanto se balançava na rede.“Mais dia, menos dia, eu me enfezo. E aí…”

“E aí o quê?” A mulher parava de varrer o chão por alguns segundos.“Tu não passa de um pamonha”.

“Cuidado, mulher…”

“Se não traz dinheiro, vai cuidar da casa. Anda”, e ela brandia a vassoura, “pega, vai varrer, vai…”

“Ficou doida? Homem que é homem não faz tarefa doméstica.”

“Homem que é homem traz dinheiro pra casa.”

“Emprego é pra gente com pouca inteligência, mulher. Gente simplória. Eu nasci pra coisa complicada.”

Mas a esposa continuou a aperrear. Para voltar a ter sossego, Juvenal decidiu procurar um emprego.

Depois de mandar seu currículo para todos os locais possíveis, algumas empresas começaram a ligar de volta, chamando-o para entrevistas.

A primeira foi em uma loja de artigos de informática.

“Desculpe, senhor Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz franzino com óculos, “mas o senhor não é qualificado o suficiente para a vaga”.

“Como assim? Eu tenho até faculdade”.

“Faculdade de Administração”.

“Onde eu aprendi gestão, organização, controle de estoque-“

“Somos uma loja de informática, senhor Juvenal. O senhor sabe o que é um chip de memória?”

Juvenal pensou por um segundo antes de falar:

“Tem a ver com batata frita?”

“Chip, senhor Juvenal. Não chips”.

“Ih, então não sei.”

“Memória RAM? Transístor? Hard drive?”

Juvenal pulou da cadeira. “Eu sei o que é um tablet! Juro!”

A segunda entrevista foi em uma revendedora de automóveis.

“Infelizmente, seu Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz de cabelo curto espetado, “o senhor é qualificado demais para a vaga”.

“E isso não é bom?”

“Precisamos, seu Juvenal, de vendedores que não sejam muito qualificados. Ou eles ficam aqui só alguns meses, até arranjarem emprego em outro lugar.”

“Não dá pra dar um jeito?”

“Com essa faculdade de Administração no seu currículo, seu Juvenal, fica difícil dar um jeito…”

Para a terceira entrevista, em uma mineradora,  Juvenal tirou do currículo a menção à faculdade.

“Seu currículo é impressionante”, disse a entrevistadora, uma morena de corpo bem-feito vestida em um terninho. “Mas pra ter certeza de que você é o que procuramos, eu preciso fazer algumas perguntas.”

“À vontade.”

“O senhor e sua mulher se dão muito bem?”

“Nós nascemos um pro outro.”

“Você pode ser sincero conosco, Juvenal”.

“Estou sendo, moça.”

“E o senhor é financeiramente estável? Ou tem dívidas?”

“Não devo nada a ninguém, moça.”

“Bem, neste caso não há mais o que pensar”, ela disse, fechando a pasta sobre a mesa.

“O emprego é meu?” Juvenal sorriu, já antecipando a cara da esposa assim que ele contasse a nova.

“Não”.

“Não?”

“Seu Juvenal, mineração  é um emprego muito pesado.”

“Imagino.”

“Ao longo dos anos, descobrimos que só permanecem nele dois tipos de empregados.”

“Quais?”

“O que estão em crise no casamento, e que por isso não querem ficar muito tempo em casa. Ou os que estão endividados. Nenhum dessas situações é seu caso.”

“Bem”, disse Juvenal, disposto a abrir o jogo, “na verdade-”

Antes que ele concluísse, a entrevistadora se levantou da cadeira e, sorrindo, estendeu-lhe a mão.

“Você é um exemplo de vida feliz, Juvenal. Assim que sair daqui, chegará em casa e sua esposa estará à espera, com o jantar pronto, cheio de carinho e amor. Parabéns.”

Assim que a esposa soube que Juvenal voltava de mais uma entrevista sem emprego, tentou atingi-lo como um copo de vidro. Ele se desviou e o copo bateu na parede, espatifando-se.

“Homem inútil. Bem que mamãe me avisou. Pois hoje vai ficar sem jantar, que é pra aprender.”

Nisso, algo mudou na fisionomia de Juvenal. O cenho franziu, os lábios se contraíram  um contra o outro.

Por que, pensou, submetia-se a isso? Ele, o dono da casa? Aquela megera pensava que era fácil achar um emprego em meio à crise? Estava na hora de ela aprender. Sim, ele iria ensiná-la. E agora mesmo.

Cerrando os punhos, ele caminhou rumo à esposa, a passo firme, decidido. A mulher recuou um, dois passos, até ser obrigada a parar com as costas rente à parede da cozinha.

Ele se aproximou dela. Ela fechou os olhos, esperando pelo bofete. Até o gato deles, parecendo prever o pior, correu para o quintal pela porta aberta da cozinha.

Então, Juvenal arrancou o avental da esposa e, colocando-o nele próprio, aproximou-se do fogão, em cujas panelas o jantar estava em preparo.

“A partir de hoje, mulher, eu cuido da casa e você trabalha. Esse negócio de emprego é complicado demais pra mim.”


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Meu amigo Roller Coaster

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Deixem que eu lhes conte do meu amigo Roller Coaster.

Claro, começo pelo nome. “Roller coaster” é a palavra em inglês para “montanha-russa”. Mas no caso de meu amigo, ela tem outro sentido. Na verdade, não é o nome dele de fato. É um apelido que ele escolheu para si. A opção por essa palavra, me disse o próprio, foi porque ela remete, de modo onomatopaico (meu amigo tem uma fina sensibilidade literária), ao inseto conhecido popularmente como rola bosta.

Trata-se do escaravelho, na verdade. Tem esse apelido porque é comum vê-lo transportando fezes sólidas, de bois, cavalos, carneiros etc. O movimento dele, aliás, lembra de fato uma montanha-russa: ele vai rolando as fezes, e muitas vezes elas caem encosta abaixo; mas o intrépido rola bosta sempre as alcança de novo.

Escolher como apelido o nome de um inseto exótico assim é esquisito, mesmo para um hipster, como meu amigo. Quando lhe perguntei o porquê, ele me explicou: o rola bosta ajuda na preservação do solo. Isso mesmo, esse pequeno inseto, quem diria, tem um papel ecológico.

Esqueci de dizer que meu amigo Roller Coaster, como todo hipster, não mede esforços para impedir o aquecimento global. Prega a favor de uma sociedade sem consumo de carnes – afinal, o gado precisa de muita área verde para pastar. Defende as energias renováveis. Assiste ao documentário do Al Gore toda semana. Afinal, nenhum hipster (ou rola bosta) que se preze irá jamais se omitir da missão de salvar nosso planeta.

Curiosamente, meu amigo Roller Coaster vive em churrascarias de rodízio. E dirige um carro a gasolina. Um daqueles grandes, que consomem muito combustível, mas impressionam as mulheres.

Algum desavisado o chamará de hipócrita. Eu no entanto sei a verdade: meu amigo é humilde demais para tentar se sobrepor aos que, desprovidos da mesma sabedoria que ele, continuam, dia a dia, a destruir nosso planeta. Ele sabe que é preciso ser tolerante com as limitações alheias. Assim, força-se a viver como os demais, numa tentativa de compreendê-los, estimá-los, olhá-los em um mesmo nível, e não acima – tocante exercício de empatia que só aumenta minha já grandiosa admiração por ele.

Que meu amigo, apesar dessa humildade, seja superior aos elementos médios da espécie humana, tive-o prova quando ele resolveu, em definitivo, a polêmica que até então dividia a comunidade científica: a de saber se o aquecimento global é causado, ou não, por ação humana. Na verdade, essa polêmica continua – mas só porque os cientistas são arrogantes demais para consultar meu amigo Roller Coaster. Tivessem-no feito, e eles lhes diria, sem sombra de dúvida, sem um momento sequer de hesitação, que o aquecimento global é causado, sim, por ação humana. E quem diz o contrário, acrescentaria, é um imbecil.

Um dia eu perguntei a meu amigo Roller Coaster como ele, um publicitário, tinha conseguido resolver de uma vez por todas uma questão científica tão complexa. Estranhamente, ele mudou de assunto. Creio que meu amigo seja generoso demais para mostrar junto a mim uma cultura científica que, de tão vasta, e ainda mais conquistada de maneira autodidata, certamente me humilharia.

De fato, por mais que eu odeie admitir, eu o invejo. Por sua cultura científica. E mais ainda mais por sua bravura moral, da qual agora faço questão de falar.

Quantos ecologistas conseguem, engolindo seus escrúpulos, penetrar no campo adversário – como meu amigo fez? Ele, que não só trabalha em uma empresa de mineração, mas tem lá um cargo de chefia? Ele, que em nome de um bem maior – a presença estratégica no campo inimigo -, aceita o fardo de trabalhar, dia a dia, contra suas próprias convicções?

Eu imagino o quanto meu amigo sofre, todo fim de mês, quando cai em sua conta bancária o salário ganho às custas da destruição do solo – o mesmo solo pelo qual ele e o rola bosta tanto lutam. O quão sujo ele não deve se sentir, quando usa esse dinheiro para pagar o aluguel de sua cobertura na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou a viagem anual ao exterior, ou os apetrechos da bicicleta importada. Essa tristeza, essa angústia deve consumi-lo tanto que nenhum de nós pode criticá-lo por se entregar aos vinhos (entregues por um clube de assinatura), ao uísque, às mobílias caras, à comida gourmet. A vida de meu amigo não é fácil, quem sou eu (ou você, leitor) para julgar alguém que tanto se sacrifica pela humanidade?

De minha parte, só posso admirar meu amigo Roller Coaster. Assim como o inseto que lhe dá o apelido, ele aceita com hedonismo o fardo de rolar, dia após dia, a bosta dos outros.

Um filme satânico

Por Douglas Lobo

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Por ocasião da estreia de “A Bruxa” (The Witch, EUA, 2016), o Templo de Satã, maior organização satanista do mundo, promoveu nos Estados Unidos sessões com o filme. Um dos líderes da associação chegou a classificá-lo como “uma experiência satânica transformadora”.

Esse entusiasmo não é de surpreender.

Na superfície, “A Bruxa” parece uma crítica à repressão religiosa. Essa aliás a leitura de seus admiradores, que viram no drama da família calvinista da Nova Inglaterra um microcosmo da dominação patriarcal com base na religião, semelhante ao dos cultos e das seitas protestantes de hoje em dia.

Não faltam elementos que endossam essa interpretação. O ambiente familiar retratado é de obediência cega à religião, e de submissão completa dos filhos aos pais. A bruxa é um rumor, uma suspeita, em torno da qual as regras se impõem com força ainda maior aos subordinados, numa metáfora de como as religiões podem usar o temor de Satanás com pretexto para aumentar seu poder.

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Seguisse nessa linha, o diretor e roteirista Robert Eggers teria criado um filme interessante, no estilo de “A Vila” (2004), de M. Night Shyamalan. Bebendo da tradição fantasmagórica da Nova Inglaterra (Hawthorne, Poe), “A Bruxa” é um terror para adultos, com uma sofisticação pouco comum no gênero. Os diálogos têm um quê de autenticidade, já que reproduzem trechos da tradição oral daquela região dos Estados Unidos, naquele período histórico.

Porém, a diversão acaba quando o filme se aproxima do fim. Aí percebemos, por meio de um twist, sua verdadeira, chocante tese: se não há garantia de salvação em servir a Deus e a suas inúmeras regras, por que não servir ao Satanás, que nos libera a diversão?

Eggers parece defender que o satanismo é o extremo lógico do fundamentalismo religioso.

É um ponto, aliás bem ilustrado no filme. Porém, na vida nossa de cada dia, há entre a conexão lógica dos fatos algo chamado mundo real. Nele, as decisões têm consequências, inclusive morais. Ao entregar-se à suposta leveza e descompromisso do culto a Satanás, abandonando a disciplina religiosa, a protagonista não o faz levada por nenhum extremo lógico irresistível: ela escolhe, consciente, deliberadamente aquele caminho – o mais fácil.

De fato, ela sequer é coagida. Há um contrato, a qual ela pode assinar ou não. Mesmo que se dê um desconto aos incidentes traumáticos que ocorrem no último terço do filme, e que podem ter levado a desesperada garota a buscar alguma outra família, mesmo uma satânica – mesmo assim, continua sendo uma decisão dela.

O entusiasmo do diretor com essa escolha é tão ingênuo quanto perigoso. Eggers celebra a fraqueza de sua protagonista como se fosse um mérito. Ele acredita mesmo que o mergulho dela no satanismo é apenas uma consequência lógica da repressão religiosa, e não uma decisão moral e autônoma de um indivíduo?

Talvez acredite.

Seja como for, algo é certo: o Templo de Satã tem todos os motivos para apreciar “A Bruxa”. É, no fim das contas, um filme satânico.

 

Tarantino, a sétima arte e “Os Oito Odiados”

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Por que neste filme a violência de Tarantino incomoda mais do que nos outros?

Por Douglas Lobo

Embora situe “Os Oito Odiados” no Velho Oeste, conhecido por suas paisagens, o diretor Quentin Tarantino desde o início enclausura seus personagens. Primeiro, em uma carruagem. Depois, em uma estalagem, sob uma tempestade de neve. Assim, toda a história poderia se passar na garagem de uma cidade moderna, ou em um porão, ou em uma cabana nos dias de hoje. Não parece haver nada que justifique a escolha do Velho Oeste. Mesmo a figura do caçador de recompensas, em torno da qual gira a trama, ainda existe (é profissão legalizada nos EUA, com o nome de Bail Enforcement Agent). O problema fica mais nítido quando vemos, de relance, os cenários magníficos da região. Essas curtas passagens aumentam a frustração, mostrando o filme que “Os Oito Odiados” poderia ter sido, não tivesse o diretor decidido transformar um western em um suspense na linha de Agatha Christie.

O filme começa sem ritmo, com três personagens em um diálogo com toneladas de informações, sem muito arranjo. Há um óbvio desleixo aqui: o background dos personagens, em vez de mostrado gradativamente ao longo da trama, é despejado de uma vez só, tornando o início do filme maçante. Tarantino já soube apresentar muito melhor seus personagens. Felizmente, a película encontra seu ritmo depois de uns vinte minutos. Porém, há outros problemas nesse filme, que marca um retrocesso de Tarantino em relação aos anteriores.

Os diálogos tangenciais, por exemplo. (Lembra quando os personagens de John Travolta e Samuel L. Jackson discorriam sobre o sanduíche quarteirão em Pulp Fiction? Então.) Esse tipo de diálogo, sendo uma das marcas de Tarantino, logicamente pulula ao longo do filme. São porém, em sua maioria, óbvios e forçados. Falham em prender a atenção. Com os personagens cuspindo palavras, em um ambiente fechado, chega uma hora em que nos sentimos como em uma festa barulhenta, loucos para sair sob qualquer pretexto.

Mais grave ainda é a ausência de um personagem pelo qual se torcer. São todos moralmente baixos, sem uma única qualidade redentora. Não há dramaticidade em ver personagens assim se degradando mais ainda. Que todos sofram o pior – quem liga?

Quanto à violência, também marca do diretor: aparece especialmente na segunda metade do filme. Nasce de situações engenhosas, no melhor estilo Tarantino. No entanto, há algo de errado aqui. Ela parece mais intensa do que em qualquer outro filme do diretor. Certamente causa um mal estar maior. Não rimos dela, como nas películas anteriores. Porém, objetivamente, há menos banho de sangue aqui do que em Kill Bill, por exemplo. Como explicar?

Talvez isso ocorra porque o resto do filme falha em nos dar a satisfação estética necessária para que aceitemos a violência. Com Quentin Tarantino, sempre há uma negociação implícita: o diretor eleva esteticamente a plateia, que por sua vez aceita a violência explícita despejada sobre ela. É por isso que passamos pelas partes finais de um filme ostensivamente violento como “Django Livre”, por exemplo, com leveza: o filme nos elevou o suficiente para que vejamos a violência de cima e, assim, aceitemos a catarse sangrenta que o diretor construiu desde o início do filme. Em “Os Oito Odiados”, ao contrário, a violência das cenas finais nos causa repulsa, mesmo nojo, embora a intenção do diretor seja fazer rir. Mas como rir da violência se não nos é dado nada em troca? Em outros filmes, aceitávamo-la em troca de enredos bem construídos, diálogos instigantes, câmeras inteligentes – tudo que faz falta em The Hateful Eight.

No fim, “Os Oito Odiados” cruza a linha que um diretor de humor negro com toneladas de violência como Quentin Tarantino sempre se arrisca a cruzar: a do bom gosto. Porém, ele não o tinha feito até agora. Ao longo de sua carreira, o diretor sempre lidou com o trash, mas sem submeter a ele. Agora, porém, perdeu a batalha.

 

 

Para que tanta redundância?

Quantas referências aos filmes anteriores da franquia “Exterminador do Futuro” há na nova sequência da série, lançada neste ano? Contei dez, mas, como não sou daqueles fãs que sabem tudo, é provável que sejam mais. Curiosamente, a nova película pretendeu relançar a franchise; porém, em vez de novo frescor, trouxe apenas a carga já degastada dos filmes anteriores.

Recentemente, as comemorações dos 30 anos do primeiro “De volta para o futuro” trouxeram algo parecido. Ou seja, mais do mesmo: o DeLorean, o skate flutuante, as mesmas histórias de bastidores… exceto que o tempo passou, os atores envelheceram, e a força da primeira película foi diluída – em parte pelo próprio excesso de exposição da franquia, decorrente do culto que se formou em torno dela.

Curiosamente, Robert Zemeckis demorou cinco anos para convencer os produtores a bancarem “De Volta para o Futuro”. Já o primeiro “Exterminador do Futuro”, estreou como um filme alternativo, mais sombrio do que o público médio estava acostumado; ninguém acreditava em seu sucesso comercial, mas hoje bonecos temáticos para crianças e adultos podem ser encontrados em várias lojas. Por sua vez, “Caça-Fantasmas”, filme feito por um grupo de iconoclastas vindos do Saturday Night Live, tornou-se uma linha de produtos da Lego.

Será esse o destino de todas as franquias? Serem sugadas até a exaustão? Absorvidas pelo mainstream por sua força cultural, para então perderem sua força precisamente porque foram absorvidas pelo mainstream?

Parece que sim. A consolidação comercial marca o ápice da influência de um produto cultural – e o início de sua queda rumo à irrelevância. Não há como comparar, por exemplo, a força de “Star Wars” quando o filme estreou com o que se vê hoje – mesmo que atualmente haja um público gigantesco à espera do novo filme da franquia; afinal, também há compradores para fraldas, carros etc., sem que isso dê a esses produtos qualquer status cultural.

Pergunta fácil: quem ganha com esse esvaziamento cultural de obras que um dia foram relevantes?

Hollywood, claro. Afinal, a indústria depende muito de franquias. Agora mesmo a produtora Lionsgate anuncia novos filmes da saga “Hunger Games”. Em 2014, sete dos dez filmes de maior bilheteria eram sequências, remakes ou reboots. As trilogias de antes deram lugar a quatro, cinco filmes e, no caso dos Vingadores, com cada filme isolado se integrando ao filme central. Ganha a indústria, perde porém o público. Nos anos 90 Hollywood fervia com roteiros originais (os “spec scripts”), vendidos muitas vezes por autores criativos, desafiadores. Filmes como American Beauty, Thelma & Louise e Good Will Hunting foram negociados naquela década.

Hoje impera o material por encomenda, controlado desde a concepção por homens de negócios, não pelos escritores. Não por acaso, a criatividade no storytelling se refugiou na TV. Correndo o risco de soar saudosista, parece que antes Hollywood fazia seu business com um pouco mais de arte. Hoje, negócio e arte parecem se repelir mutuamente.

A seu modo, Hollywood reproduz uma característica de nossa época, comprovada nas redes sociais: a redundância. O mundo se tornou um amontoado de tribos isoladas, cada uma com suas convicções e visão de mundo próprias. Nesses guetos, qualquer opinião divergente é banida, porque quebra o senso de pertencimento grupal. Ler e ouvir o que já se sabe e com o qual se concorda de antemão tornou-se um mantra. Afinal, o novo conteúdo é desafiador, exige um alargamento de percepção, muitas vezes em diálogo com uma voz dissonante.

Natural portanto vermos os mesmos filmes várias vezes.  O interesse comercial da indústria cria um público que se fecha mais e mais para novos desafios artísticos. O cinema comercial americano tornou-se um círculo fechado, como insetos que voassem ao redor de uma lâmpada. Resta saber quanto tempo até que caiam mortos…