Pelo Fim da Contribuição Sindical

O governo Temer está sob protesto desde o primeiro dia. Greves, manifestações, vandalismo, ações em massa nas redes sociais…

Em todos esses protestos, o discurso é o mesmo: trata-se de um governo ilegítimo, porque golpista. O “golpe” teria como agentes, em primeiro plano, o PMDB, partido do vice-presidente que assumiu a presidência; em segundo, os Estados Unidos, interessados no pré-sal brasileiro e, portanto, agindo nos bastidores para destruir a imagem da Petrobras.

Desconsiderando-se a comicidade, o que chama atenção de fato em muitos desses protestos é os recursos de que se utilizam. Transporte, carros de som, blusas, faixas, cartazes, fantasias, alimentação… tudo organizado em rede, o que demanda trabalho e dinheiro. Não se trata, pois, de desvalidos ou estudantes humildes indo protestar. Trata-se de militantes financiados, direta ou indiretamente.

Resta saber: por quem?

É provável que haja várias fontes de financiamento. Uma porém pode ser apontada com segurança: a máquina sindical.

Em muitos dos protestos ocorridos até agora, a presença dos sindicatos foi ostensiva. Em várias das greves convocadas recentemente, o discurso do “golpe” — ou de seus desdobramentos — têm sido a ênfase.

Isso não é de espantar: desde a emergência do “novo sindicalismo”, no fim dos 1970, os sindicatos têm sido uma das bases materiais da hegemonia esquerdista — já fornecendo transporte e alimentação aos militantes, já infiltrando-se nas corporações, já financiando pesquisas e institutos para fortalecer a narrativa da esquerda etc.

Na guerra política, os sindicatos cumprem um papel dos mais importantes.

Mas de onde vem o dinheiro?

De um mecanismo criado em 1943 pelo governo Vargas: a contribuição sindical.

Ela surgiu para financiar sindicatos, federações e confederações. A partir de 2008, por meio de lei, estendeu-se também às centrais sindicais. Ela é compulsória, abrangendo trabalhadores sindicalizados ou não. Anualmente, a contribuição arrecada cerca de R$ 3,2 bilhões, que são repassados pelo governo às entidades sindicais, beneficiando no mínimo 8.518 sindicalistas, de acordo com o site Contas Abertas.

Por ser um instrumento compulsório do Estado, a contribuição sindical está obviamente vinculada ao papel legal das entidades sindicais, qual seja, o de representar os empregados junto aos empregadores.

A questão é: os sindicatos fazem isso?

Não, não fazem.

No Brasil, as entidades sindicais são aparatos para assegurar a hegemonia esquerdista.

E os empregados, massa de manobra.

E isso não é de agora.

Já em 1959, em sua mensagem de fim de ano, o presidente Juscelino Kubistchek denunciava, nas greves que então ocorriam no país, a infiltração de idéias políticas radicais nas entidades sindicais.

Nos anos 60, surgem as ligas camponesas. A filiação política delas com a esquerda era óbvia em suas mensagens. Sob o pretexto da reforma agrária, as ligas levaram o radicalismo ao campo, criando o mito de que o problema do trabalhador agrário seria resolvido com a posse da terra (narrativa que resistiu até ao desmonte que um marxista, Caio Prado Júnior, fez da mesma em 1964).

Ao fim dos anos 70, o sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista promove uma greve que acaba por levar à fundação do PT. A partir daí, os sindicatos seriam instrumentos sob comando do partido, ajudando a sigla, por exemplo, a se opor aos vários planos econômicos que tentavam estabilizar a inflação.

Agora, os sindicatos seguem a orientação, do PT e de seus satélites, de se oporem ao “golpe”. O componente político é evidente nas greves e negociações promovidas recentemente. Algumas entidades sindicais não hesitaram em se posicionar, por exemplo, contra a redução opcional da jornada de trabalho, contrariando a base de trabalhadores. Boas propostas pelos empregadores foram rejeitadas, com o óbvio objetivo de perpetuar a dissidência, o embate.

Os líderes sindicais não representam os trabalhadores. Seu compromisso é com os partidos políticos de esquerda. 

Dito isso, fica a pergunta: por que tirar compulsoriamente dinheiro dos trabalhadores para financiar sindicatos que, desvirtuando seus objetivos, servem a um grupelho de partidos políticos?

Agindo assim, os sindicatos atuam no limiar da lei. Afinal, a contribuição sindical é na prática um imposto, vinculado legalmente à determinada atividade, que os sindicatos distorcem. Como parece ter ocorrido, por exemplo, em uma das campanhas de Lula: a acreditar em um dos participantes, o dinheiro teria ido para o caixa da campanha, e não para as atividades sindicais.

Mesmo que isso não seja verdade, o fato é: qualquer entidade sindical que use o dinheiro da contribuição para exercer atividade político-partidária, fugindo à vinculação legal do imposto, constrói na prática um caixa 2.

Longe de mim negar que a hegemonia da esquerda tem um componente cultural, que não pode nem deve ser ignorado. Essa hegemonia é tão forte que a narrativa esquerdista está em todo lugar, para onde quer que nos viremos. Como se já vivêssemos no livro “1984” de George Orwell.

Mas não podemos perder de vista o principal: como essa hegemonia foi obtida?

Com dispêndio de recursos. Fosse o investimento das grandes gravadoras na MPB, fosse os recursos da Embrafilme para os cineastas, fosse o financiamento — direto ou indireto — dos governos petistas a ONGS, ao MST etc. – fosse o que fosse, não faltou dinheiro para a máquina esquerdista.

Toda hegemonia tem uma base material. A da esquerda não é diferente.

Não se trata de defender aqui, de maneira simplista, que a extinção de recursos implique na extinção imediata (ou mesmo a médio prazo) da hegemonia. Esta tem que ser combatida também no campo propriamente intelectual e narrativo. Trata-se porém de defender o uso de uma das estratégias básicas para se derrotar um adversário: privá-lo dos recursos materiais.

Extinguir a contribuição sindical obrigatória (ou torná-la voluntária) é um dos primeiros passos para a destruição da hegemonia esquerdista.

Em Busca de Emprego

A situação anda difícil e, não bastasse estar desempregado, Juvenal ainda tinha que aturar as cobranças da esposa:

“Fica dormindo nessa rede enquanto eu cuido da casa.” O gato da casa, deitado a um canto, acordava com os ralhos da mulher. “E isso porque tá devendo dinheiro pra todo mundo. Tanto homem por aí e fui terminar com um lixo desses.”

“Olha como fala comigo, mulher”, dizia Juvenal enquanto se balançava na rede.“Mais dia, menos dia, eu me enfezo. E aí…”

“E aí o quê?” A mulher parava de varrer o chão por alguns segundos.“Tu não passa de um pamonha”.

“Cuidado, mulher…”

“Se não traz dinheiro, vai cuidar da casa. Anda”, e ela brandia a vassoura, “pega, vai varrer, vai…”

“Ficou doida? Homem que é homem não faz tarefa doméstica.”

“Homem que é homem traz dinheiro pra casa.”

“Emprego é pra gente com pouca inteligência, mulher. Gente simplória. Eu nasci pra coisa complicada.”

Mas a esposa continuou a aperrear. Para voltar a ter sossego, Juvenal decidiu procurar um emprego.

Depois de mandar seu currículo para todos os locais possíveis, algumas empresas começaram a ligar de volta, chamando-o para entrevistas.

A primeira foi em uma loja de artigos de informática.

“Desculpe, senhor Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz franzino com óculos, “mas o senhor não é qualificado o suficiente para a vaga”.

“Como assim? Eu tenho até faculdade”.

“Faculdade de Administração”.

“Onde eu aprendi gestão, organização, controle de estoque-“

“Somos uma loja de informática, senhor Juvenal. O senhor sabe o que é um chip de memória?”

Juvenal pensou por um segundo antes de falar:

“Tem a ver com batata frita?”

“Chip, senhor Juvenal. Não chips”.

“Ih, então não sei.”

“Memória RAM? Transístor? Hard drive?”

Juvenal pulou da cadeira. “Eu sei o que é um tablet! Juro!”

A segunda entrevista foi em uma revendedora de automóveis.

“Infelizmente, seu Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz de cabelo curto espetado, “o senhor é qualificado demais para a vaga”.

“E isso não é bom?”

“Precisamos, seu Juvenal, de vendedores que não sejam muito qualificados. Ou eles ficam aqui só alguns meses, até arranjarem emprego em outro lugar.”

“Não dá pra dar um jeito?”

“Com essa faculdade de Administração no seu currículo, seu Juvenal, fica difícil dar um jeito…”

Para a terceira entrevista, em uma mineradora,  Juvenal tirou do currículo a menção à faculdade.

“Seu currículo é impressionante”, disse a entrevistadora, uma morena de corpo bem-feito vestida em um terninho. “Mas pra ter certeza de que você é o que procuramos, eu preciso fazer algumas perguntas.”

“À vontade.”

“O senhor e sua mulher se dão muito bem?”

“Nós nascemos um pro outro.”

“Você pode ser sincero conosco, Juvenal”.

“Estou sendo, moça.”

“E o senhor é financeiramente estável? Ou tem dívidas?”

“Não devo nada a ninguém, moça.”

“Bem, neste caso não há mais o que pensar”, ela disse, fechando a pasta sobre a mesa.

“O emprego é meu?” Juvenal sorriu, já antecipando a cara da esposa assim que ele contasse a nova.

“Não”.

“Não?”

“Seu Juvenal, mineração  é um emprego muito pesado.”

“Imagino.”

“Ao longo dos anos, descobrimos que só permanecem nele dois tipos de empregados.”

“Quais?”

“O que estão em crise no casamento, e que por isso não querem ficar muito tempo em casa. Ou os que estão endividados. Nenhum dessas situações é seu caso.”

“Bem”, disse Juvenal, disposto a abrir o jogo, “na verdade-”

Antes que ele concluísse, a entrevistadora se levantou da cadeira e, sorrindo, estendeu-lhe a mão.

“Você é um exemplo de vida feliz, Juvenal. Assim que sair daqui, chegará em casa e sua esposa estará à espera, com o jantar pronto, cheio de carinho e amor. Parabéns.”

Assim que a esposa soube que Juvenal voltava de mais uma entrevista sem emprego, tentou atingi-lo como um copo de vidro. Ele se desviou e o copo bateu na parede, espatifando-se.

“Homem inútil. Bem que mamãe me avisou. Pois hoje vai ficar sem jantar, que é pra aprender.”

Nisso, algo mudou na fisionomia de Juvenal. O cenho franziu, os lábios se contraíram  um contra o outro.

Por que, pensou, submetia-se a isso? Ele, o dono da casa? Aquela megera pensava que era fácil achar um emprego em meio à crise? Estava na hora de ela aprender. Sim, ele iria ensiná-la. E agora mesmo.

Cerrando os punhos, ele caminhou rumo à esposa, a passo firme, decidido. A mulher recuou um, dois passos, até ser obrigada a parar com as costas rente à parede da cozinha.

Ele se aproximou dela. Ela fechou os olhos, esperando pelo bofete. Até o gato deles, parecendo prever o pior, correu para o quintal pela porta aberta da cozinha.

Então, Juvenal arrancou o avental da esposa e, colocando-o nele próprio, aproximou-se do fogão, em cujas panelas o jantar estava em preparo.

“A partir de hoje, mulher, eu cuido da casa e você trabalha. Esse negócio de emprego é complicado demais pra mim.”


Gostou? Então, não deixo de conferir aqui livros com crônicas de grandes autores brasileiros.

A Truly Conservative Book

By Douglas Lobo

Author Dinesh D’Souza

Some reviewers of Letters to a Young Conservative (2005) accuse its author,  Dinesh D’Souza, to be “angry” in this book. 

Thinking this way is to make the old mistake generations of conservatives has been made: being polite with the leftists, just to be called by them “fascists”. 

Yes, Dinesh D’Souza is angry with leftists. I myself appreciate that. After all, politics is a war of ideas, and being polite or not is a secondary issue. What matters is: the book explains greatly the grounds of conservatism.

Criticizing the lack of scientificism in the book, like other reviewers did, is to miss the point: Letters to a Young Conservative is about a political option, so It’s based on philosofical argumentation, not datas (altough there are a lot of them). Besides, trying to discuss politics in scientific bases is a kind of naive. Dinesh is an old school intelectual, not a scientist. Great book, a truly conservative one.

Meu amigo Roller Coaster

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Deixem que eu lhes conte do meu amigo Roller Coaster.

Claro, começo pelo nome. “Roller coaster” é a palavra em inglês para “montanha-russa”. Mas no caso de meu amigo, ela tem outro sentido. Na verdade, não é o nome dele de fato. É um apelido que ele escolheu para si. A opção por essa palavra, me disse o próprio, foi porque ela remete, de modo onomatopaico (meu amigo tem uma fina sensibilidade literária), ao inseto conhecido popularmente como rola bosta.

Trata-se do escaravelho, na verdade. Tem esse apelido porque é comum vê-lo transportando fezes sólidas, de bois, cavalos, carneiros etc. O movimento dele, aliás, lembra de fato uma montanha-russa: ele vai rolando as fezes, e muitas vezes elas caem encosta abaixo; mas o intrépido rola bosta sempre as alcança de novo.

Escolher como apelido o nome de um inseto exótico assim é esquisito, mesmo para um hipster, como meu amigo. Quando lhe perguntei o porquê, ele me explicou: o rola bosta ajuda na preservação do solo. Isso mesmo, esse pequeno inseto, quem diria, tem um papel ecológico.

Esqueci de dizer que meu amigo Roller Coaster, como todo hipster, não mede esforços para impedir o aquecimento global. Prega a favor de uma sociedade sem consumo de carnes – afinal, o gado precisa de muita área verde para pastar. Defende as energias renováveis. Assiste ao documentário do Al Gore toda semana. Afinal, nenhum hipster (ou rola bosta) que se preze irá jamais se omitir da missão de salvar nosso planeta.

Curiosamente, meu amigo Roller Coaster vive em churrascarias de rodízio. E dirige um carro a gasolina. Um daqueles grandes, que consomem muito combustível, mas impressionam as mulheres.

Algum desavisado o chamará de hipócrita. Eu no entanto sei a verdade: meu amigo é humilde demais para tentar se sobrepor aos que, desprovidos da mesma sabedoria que ele, continuam, dia a dia, a destruir nosso planeta. Ele sabe que é preciso ser tolerante com as limitações alheias. Assim, força-se a viver como os demais, numa tentativa de compreendê-los, estimá-los, olhá-los em um mesmo nível, e não acima – tocante exercício de empatia que só aumenta minha já grandiosa admiração por ele.

Que meu amigo, apesar dessa humildade, seja superior aos elementos médios da espécie humana, tive-o prova quando ele resolveu, em definitivo, a polêmica que até então dividia a comunidade científica: a de saber se o aquecimento global é causado, ou não, por ação humana. Na verdade, essa polêmica continua – mas só porque os cientistas são arrogantes demais para consultar meu amigo Roller Coaster. Tivessem-no feito, e eles lhes diria, sem sombra de dúvida, sem um momento sequer de hesitação, que o aquecimento global é causado, sim, por ação humana. E quem diz o contrário, acrescentaria, é um imbecil.

Um dia eu perguntei a meu amigo Roller Coaster como ele, um publicitário, tinha conseguido resolver de uma vez por todas uma questão científica tão complexa. Estranhamente, ele mudou de assunto. Creio que meu amigo seja generoso demais para mostrar junto a mim uma cultura científica que, de tão vasta, e ainda mais conquistada de maneira autodidata, certamente me humilharia.

De fato, por mais que eu odeie admitir, eu o invejo. Por sua cultura científica. E mais ainda mais por sua bravura moral, da qual agora faço questão de falar.

Quantos ecologistas conseguem, engolindo seus escrúpulos, penetrar no campo adversário – como meu amigo fez? Ele, que não só trabalha em uma empresa de mineração, mas tem lá um cargo de chefia? Ele, que em nome de um bem maior – a presença estratégica no campo inimigo -, aceita o fardo de trabalhar, dia a dia, contra suas próprias convicções?

Eu imagino o quanto meu amigo sofre, todo fim de mês, quando cai em sua conta bancária o salário ganho às custas da destruição do solo – o mesmo solo pelo qual ele e o rola bosta tanto lutam. O quão sujo ele não deve se sentir, quando usa esse dinheiro para pagar o aluguel de sua cobertura na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou a viagem anual ao exterior, ou os apetrechos da bicicleta importada. Essa tristeza, essa angústia deve consumi-lo tanto que nenhum de nós pode criticá-lo por se entregar aos vinhos (entregues por um clube de assinatura), ao uísque, às mobílias caras, à comida gourmet. A vida de meu amigo não é fácil, quem sou eu (ou você, leitor) para julgar alguém que tanto se sacrifica pela humanidade?

De minha parte, só posso admirar meu amigo Roller Coaster. Assim como o inseto que lhe dá o apelido, ele aceita com hedonismo o fardo de rolar, dia após dia, a bosta dos outros.

http://osbruzundangas.com.br/meu-amigo-roller-coaster/#more-150

Um filme satânico

Por Douglas Lobo

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Por ocasião da estreia de “A Bruxa” (The Witch, EUA, 2016), o Templo de Satã, maior organização satanista do mundo, promoveu nos Estados Unidos sessões com o filme. Um dos líderes da associação chegou a classificá-lo como “uma experiência satânica transformadora”.

Esse entusiasmo não é de surpreender.

Na superfície, “A Bruxa” parece uma crítica à repressão religiosa. Essa aliás a leitura de seus admiradores, que viram no drama da família calvinista da Nova Inglaterra um microcosmo da dominação patriarcal com base na religião, semelhante ao dos cultos e das seitas protestantes de hoje em dia.

Não faltam elementos que endossam essa interpretação. O ambiente familiar retratado é de obediência cega à religião, e de submissão completa dos filhos aos pais. A bruxa é um rumor, uma suspeita, em torno da qual as regras se impõem com força ainda maior aos subordinados, numa metáfora de como as religiões podem usar o temor de Satanás com pretexto para aumentar seu poder.

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Seguisse nessa linha, o diretor e roteirista Robert Eggers teria criado um filme interessante, no estilo de “A Vila” (2004), de M. Night Shyamalan. Bebendo da tradição fantasmagórica da Nova Inglaterra (Hawthorne, Poe), “A Bruxa” é um terror para adultos, com uma sofisticação pouco comum no gênero. Os diálogos têm um quê de autenticidade, já que reproduzem trechos da tradição oral daquela região dos Estados Unidos, naquele período histórico.

Porém, a diversão acaba quando o filme se aproxima do fim. Aí percebemos, por meio de um twist, sua verdadeira, chocante tese: se não há garantia de salvação em servir a Deus e a suas inúmeras regras, por que não servir ao Satanás, que nos libera a diversão?

Eggers parece defender que o satanismo é o extremo lógico do fundamentalismo religioso.

É um ponto, aliás bem ilustrado no filme. Porém, na vida nossa de cada dia, há entre a conexão lógica dos fatos algo chamado mundo real. Nele, as decisões têm consequências, inclusive morais. Ao entregar-se à suposta leveza e descompromisso do culto a Satanás, abandonando a disciplina religiosa, a protagonista não o faz levada por nenhum extremo lógico irresistível: ela escolhe, consciente, deliberadamente aquele caminho – o mais fácil.

De fato, ela sequer é coagida. Há um contrato, a qual ela pode assinar ou não. Mesmo que se dê um desconto aos incidentes traumáticos que ocorrem no último terço do filme, e que podem ter levado a desesperada garota a buscar alguma outra família, mesmo uma satânica – mesmo assim, continua sendo uma decisão dela.

O entusiasmo do diretor com essa escolha é tão ingênuo quanto perigoso. Eggers celebra a fraqueza de sua protagonista como se fosse um mérito. Ele acredita mesmo que o mergulho dela no satanismo é apenas uma consequência lógica da repressão religiosa, e não uma decisão moral e autônoma de um indivíduo?

Talvez acredite.

Seja como for, algo é certo: o Templo de Satã tem todos os motivos para apreciar “A Bruxa”. É, no fim das contas, um filme satânico.

 

A Cautionary Tale

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“Wired” is a cautionary tale about the risk of drugs. Belushi was trapped in a wire of drug dealers and supppliers which was supported by the celebrities he lived around with. His death was a expected tragedy.

Woodward tell Belushi´s life as he was a fictional character, whose conflicts increase little by little. The style is fast, but more intense and detailed in the end. Belushi and other celebrities, like Dan Aykroyd and Steven Spielberg, are described so vivid that we can actually see them on the pages.

Amazing book.

Be Aware of the Vampires

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Salem’s Lot tells how an small town in America is slowly infested by vampires. Just a group of few people – Ben Mears, the protagonist, between them – know the truth and must fight to save the town.

The books is a retelling of “Dracula”, whose structure follows closely. On the other hand, King mixes ghotic style with elements of small town literature, detailing the lives of Salem’s Lot, especially its secrets.

I confess I was disappointed with the ending. The book creates the tension gradualy, so that we expect a knock-out in the end and that doesn’t happen.

I thought characters a little simplist, but, contrary to others, I don’t think King is good at creating characters. They always remember me cartoon characters. By the way, the best in the books are the vampires, just because they don’t have nuances – they are just pure evil.

I enjoyed the plot and the style. No description at the book is just a description: there is always a point of view, explicit or don’t, about what’s being showed. Dialogs are great, especially those by head of the vampires.

I recommend.

A Time to Miss

By Douglas Lobo

Once upon a time there were persons who could think and even write about films. They were called movie critics. They used to be read by a legion of followers, who had as much fun with the critic as with the movie itself (sometimes more with the critic). They even dared, believe it or not, to write with personal judgment and style, without being afraid of disagreements or breaking the decorum.

Unfortunately, they’re now extinct. The last ones resisted bravely, but even they couldn’t resist the internet, where a lot of sites and blogs, in order to get ads, focus almost solely on commercial movies reviewed poorly by low-paid – or no-paid at all – collaborators. If you want to know more about this once powerful but now extinct species, I strongly recommend the book “Pauline Kael: A Life in the Dark”, by Brian Kellow.

It’s the biography of Pauline Kael, the most famous American movie critic. It tells her life story from the early years to her death, in 2001. Kellow goes deeply into her public and private life, by interviewing people whom she had met, old adversaries, ex-workmates and parents. Moreover, he had access to her private letters and the notes she used to make before writing a critique. He even read the screenplays and plays Kael wrote before deciding, after failing as creative writer, to become a movie critic.

A young reader may ask: “why read this book? Movie criticism is a dull job, after all”.

He would have some reason to think this. Unlike other people from show business, Kael’s life wasn’t full of sex and drugs (actually she never used drugs and her sexual life was a rather conventional one); she didn’t come from a disturbed family, so she had no father issues; she never had tons of money, being a middle-classer her entire life; she lived in NYC, but she was always a provincial mid-westerner. Her life would have been a normal one, if she hadn’t been the most famous movie critic in the history of the United States. So, the book shows a kind of ordinary life but of an extraordinary person. It’s always good to discover a life which is similar to ours, but better. It gives us hope that we can achieve more goals just by adding commitment and passion to the common life we already have.

The author distinctly knows we don’t read the book to know him, but Kael. Kellow plainly doens’t want to draw attention to himself. We don’t see him giving strong opinions. He writes in a plain east-coast English markedly different from the highly personal one used by Kael herself. That’s effective, because when he transcribes Kael’s excerpts we can hear contrastingly her characteristic voice, expressed in a English alternately svelte and slangy.

The book shows how passionate Pauline Kael was about movies. She watched them intensely and, despite never seeing the same one twice, could memorize entire lines. At the end of the sixties, when the New Hollywood emerged, she began to believe that the cinema would soon be the only art of our time capable of connecting with the people, especially because the more established arts had become theoretical and academic. In order to have this strong connection with the audience, Kael said, films should avoid the pretentiousness that so often had been associated with hermetic language. That didn’t mean films should be stupid: on the contrary, Kael had no patience with films that didn’t respect the intelligence of the audience.

Superb at noticing trends, Kael astonishingly didn’t realize that her expectations concerning a soon-to-be golden age of movies would end in 1975, after Jaws – ironically, directed by one of her favorite directors, Steven Spielberg – achieved a huge success at box office. From now on, blockbusters would be the new product of Hollywood. Films would be targeted at a worldwide young audience who supposedly had no interest in more meaningful stories. Executives would become as important as ever in the business, choosing what to produce based chiefly on the demands of profit. When she announced her retirement, in 1991, Kael was staggeringly disappointed with the path American cinema had followed. The film criticism itself didn’t escape from the business-oriented scenario. The critics would be replaced by the reviewers, who appreciated a movie like a customer values a pair of shoes or a refrigerator. The interned would finish the job. Since then, life has became boring for movie-goers.

Today, Kael’s writings are an old-fashioned enjoyment, recalling a time unknown to an entire generation who have never really been challenged to think about movies, just watching them. Reading Pauline Kael: a Life in the Dark is to travel to a time when the film critics, as the movies themselves, had a huge impact that they presumably will never have again.

Tarantino, a sétima arte e “Os Oito Odiados”

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Por que neste filme a violência de Tarantino incomoda mais do que nos outros?

Por Douglas Lobo

Embora situe “Os Oito Odiados” no Velho Oeste, conhecido por suas paisagens, o diretor Quentin Tarantino desde o início enclausura seus personagens. Primeiro, em uma carruagem. Depois, em uma estalagem, sob uma tempestade de neve. Assim, toda a história poderia se passar na garagem de uma cidade moderna, ou em um porão, ou em uma cabana nos dias de hoje. Não parece haver nada que justifique a escolha do Velho Oeste. Mesmo a figura do caçador de recompensas, em torno da qual gira a trama, ainda existe (é profissão legalizada nos EUA, com o nome de Bail Enforcement Agent). O problema fica mais nítido quando vemos, de relance, os cenários magníficos da região. Essas curtas passagens aumentam a frustração, mostrando o filme que “Os Oito Odiados” poderia ter sido, não tivesse o diretor decidido transformar um western em um suspense na linha de Agatha Christie.

O filme começa sem ritmo, com três personagens em um diálogo com toneladas de informações, sem muito arranjo. Há um óbvio desleixo aqui: o background dos personagens, em vez de mostrado gradativamente ao longo da trama, é despejado de uma vez só, tornando o início do filme maçante. Tarantino já soube apresentar muito melhor seus personagens. Felizmente, a película encontra seu ritmo depois de uns vinte minutos. Porém, há outros problemas nesse filme, que marca um retrocesso de Tarantino em relação aos anteriores.

Os diálogos tangenciais, por exemplo. (Lembra quando os personagens de John Travolta e Samuel L. Jackson discorriam sobre o sanduíche quarteirão em Pulp Fiction? Então.) Esse tipo de diálogo, sendo uma das marcas de Tarantino, logicamente pulula ao longo do filme. São porém, em sua maioria, óbvios e forçados. Falham em prender a atenção. Com os personagens cuspindo palavras, em um ambiente fechado, chega uma hora em que nos sentimos como em uma festa barulhenta, loucos para sair sob qualquer pretexto.

Mais grave ainda é a ausência de um personagem pelo qual se torcer. São todos moralmente baixos, sem uma única qualidade redentora. Não há dramaticidade em ver personagens assim se degradando mais ainda. Que todos sofram o pior – quem liga?

Quanto à violência, também marca do diretor: aparece especialmente na segunda metade do filme. Nasce de situações engenhosas, no melhor estilo Tarantino. No entanto, há algo de errado aqui. Ela parece mais intensa do que em qualquer outro filme do diretor. Certamente causa um mal estar maior. Não rimos dela, como nas películas anteriores. Porém, objetivamente, há menos banho de sangue aqui do que em Kill Bill, por exemplo. Como explicar?

Talvez isso ocorra porque o resto do filme falha em nos dar a satisfação estética necessária para que aceitemos a violência. Com Quentin Tarantino, sempre há uma negociação implícita: o diretor eleva esteticamente a plateia, que por sua vez aceita a violência explícita despejada sobre ela. É por isso que passamos pelas partes finais de um filme ostensivamente violento como “Django Livre”, por exemplo, com leveza: o filme nos elevou o suficiente para que vejamos a violência de cima e, assim, aceitemos a catarse sangrenta que o diretor construiu desde o início do filme. Em “Os Oito Odiados”, ao contrário, a violência das cenas finais nos causa repulsa, mesmo nojo, embora a intenção do diretor seja fazer rir. Mas como rir da violência se não nos é dado nada em troca? Em outros filmes, aceitávamo-la em troca de enredos bem construídos, diálogos instigantes, câmeras inteligentes – tudo que faz falta em The Hateful Eight.

No fim, “Os Oito Odiados” cruza a linha que um diretor de humor negro com toneladas de violência como Quentin Tarantino sempre se arrisca a cruzar: a do bom gosto. Porém, ele não o tinha feito até agora. Ao longo de sua carreira, o diretor sempre lidou com o trash, mas sem submeter a ele. Agora, porém, perdeu a batalha.