Faltou algo no decreto de intervenção

No decreto do presidente Temer que determinou a intervenção militar no Rio de Janeiro, faltou dizer o real motivo da ação: Jair Bolsonaro.

Não é preciso ser gênio da análise política para ver, na intervenção e nas declarações que se lhe seguiram, o propósito de mostrar ação firme contra o crime — retirando assim de Bolsonaro sua principal bandeira.

Não fosse isso, por que a intervenção, agora, em ano eleitoral?

O decreto menciona “grave comprometimento da ordem pública no Estado do Rio de Janeiro.”

Quem não sabe que o Rio enfrenta “grave comprometimento da ordem pública” há décadas?

O que aconteceu, nos últimos meses, para justificar a intervenção?

Segundo a imprensa, a gota d’água teria ocorrido com as cenas de violência no carnaval carioca.

Mas, em que carnaval do Rio não foram registradas cenas de violência? Aliás, em que carnaval brasileiro de algum porte não foram registrados episódios assim?

Não quero dizer com isso que a intervenção foi planejada com propósito exclusivo de prejudicar Jair Bolsonaro. Mas, acredito que a ascensão do candidato nas pesquisas tenha contribuído para que o presidente Temer tirasse do papel a intervenção — planejada há cerca de um ano, pelo Ministério da Defesa, como resposta à ação das facções.

A preocupação do establishment com Bolsonaro já se podia sentir em dezembro de 2017, quando Fernando Henrique Cardoso, um de seus representantes mais prestigiosos, disse ao Estado de São Paulo:

por causa do regime autoritário (de 1964), as forças democráticas têm pudor de falar em segurança — mas não estamos mais na mesma situação de antes.

Não se trata mais, dizia,

da repressão política, como no passado: agora é segurança para a população.

E a intervenção foi só o começo.

Já no sábado, o presidente Temer anunciou a criação do Ministério de Segurança Pública, desmembrado do Ministério da Justiça. As atribuições da nova pasta ainda não estão claras, mas é óbvio que ela implica em uma centralização das ações de segurança sob o governo federal — e, nisso, menos sujeição às políticas dos estados, que poderiam prejudicar a defesa maior de interesses pelo establishment.

Além disso, a assinatura do decreto de intervenção foi acompanhada de declarações dos agentes políticos, em uma ação com ares de orquestrada:

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), classificou a intervenção de “medida extrema”, mas necessária:

Havendo necessidade, há que se agir, não se pode ter omissão.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes — indicado por FHC —, disse que a intervenção era algo que “precisava ser feito”:

No sentido, de sinalizar que era preciso dar um basta nesse quadro de desmando.

Outro ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes -— indicado por Temer —, defendeu execução penal mais dura para condenados que sejam membros de organizações criminosas:

O Brasil não pode continuar a tratar a execução da pena daquele que furta da mesma forma daquele que é um traficante de armas, de drogas.

Ninguém sabe onde se escondiam esses bravos homens enquanto, nas últimas décadas, o crime organizado dominava as favelas e o aparelho estatal do Rio de Janeiro.

E não só eles.

Tivemos sete eleições presidenciais na Nova República. Em nenhuma delas, os candidatos discutiram a segurança pública. Isto, num país com 70 mil vítimas de homicídios por ano — o maior índice do mundo.

Coube a Bolsonaro -— talvez pela carreira militar — perceber a importância do tema e levá-lo ao debate. A população, vítima diária da violência, respondeu à altura, dando-lhe números crescentes nas pesquisas.

Não se iludam: são esses números que atemorizam o establishment político, cujos agentes tentam demonstrar, nos últimos dias, firmeza de ação contra um problema que até ontem fingiam não existir.

 

 

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Uma vocação desperdiçada

O Rio é Tão Longe: Cartas a Fernando SabinoO Rio é Tão Longe: Cartas a Fernando Sabino by Otto Lara Resende

My rating: 4 of 5 stars

Nas cartas que Otto Lara Resende enviou a Fernando Sabino ao longo da vida (O Rio é tão Longe: cartas a Fernando Sabino. Introdução e notas de Humberto Werneck. São Paulo: Companhia das Letras, 2011), fica claro que o autor do romance “O Braço Direito” foi um ficcionista genuíno, mas que se desviou de sua vocação.

De fato, romancista e contista de alto calibre, Otto Lara Resende escreveu em vida, no entanto, poucas obras (cinco livros de contos e um romance). Isto se deve — e esta epistolografia atesta-o — tanto a seu perfeccionismo quanto à sua dispersão em vários afazeres profissionais.

No primeiro caso, a busca da obra perfeita, bem-acabada, levava-o a retardar a publicação de material, a ponto de Fernando Sabino aconselhá-lo: “é um livro, não tem que ser o livro, diabo!”

No segundo caso, o excesso de compromissos profissionais assumidos deixava-lhe pouco tempo disponível para o individualismo solitário da carreira literária. Afinal, a criação literária é antes de tudo um ato individual, isolado; a contribuição de um escritor para a sociedade só é possível quando ele se isola dessa mesma sociedade — numa contradição mais aparente que real.

Como o próprio Otto Lara Resende reconhecia, ele vivia mais para os outros que para si. “(…) Vivo crucificado em mil probleminhas alheios, causas chatas, aquela minha vocação de ser devorado pelos outros”, escrevia de Lisboa, a 15 de março de 1969 (pg.308). Ele chega a celebrar sua recusa em emprestar dinheiro a alguém, mas confessa que isso lhe fez dormir mal e ter remorsos. Em carta de 22 de maio de 1969, confessava: “É o velho problema: não querendo (ou não sabendo) dizer não, querendo satisfazer ao interlocutor, sujeito à pressão, caio numa aparente perplexidade e hesitação.”(pág.331).

Essa dificuldade de dizer “não” fez com que assumisse quantidade impressionante de atividades (jornalista, diretor de banco, adido cultural, procurador, professor, advogado), que relegaram a literatura às horas mortas do cansaço e da sonolência.

Otto Lara Resende parecia ter noção dessa vida desperdiçada, embora tentasse disfarçar essa consciência por meio do bom humor. “Meu Cemitério Literário!”, escrevia a 11 de junho de 1969. “É maior do qualquer cemitério de automóveis da Califórnia” (pág. 354). As cartas são cheias de comentários sobre projetos abandonados, procrastinação, adiamentos, num escritor em quem o conforto material advindo dos cargos trabalhou mais contra a vocação literária que a favor — armadilha do acomodamento burguês contra a qual Mário de Andrade alertara Fernando Sabino, em outra correspondência, mais famosa.

Curiosamente, a mesma epistolografia que desvela os motivos pelos quais Otto Lara não se tornou o ficcionista que almejava ser acaba por situá-lo como escritor de peso. Escritas em um português que dialoga com a linguagem falada sem descuidar da gramática e das nuances da língua culta, as cartas reunidas neste livro comprovam o que os amigos de Otto diziam dele: que seu maior talento era a epistolografia. O perfeccionismo do escritor, claro, levou-0 a rejeitar a proposta de Fernando Sabino, ainda nos 1960, de publicar sua correspondência. Décadas depois, o projeto de edição preparado por Sabino acabou publicado pela Companhia das Letras.

Se em vida o profissional Otto Lara Resende venceu o escritor, essa correspondência póstuma não deixa de ser, assim, pequena vingança do escritor contra o profissional. Escritores têm este privilégio, o de continuarem a luta mesmo depois de mortos — ainda que se trate, como no caso aqui, de um conflito consigo mesmo: a faceta criativa versus a profissional, no interior de um homem cuja disponibilidade excessiva aos outros acabou por soterrar a ânsia individual da criação literária.

 

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Baile de Formatura

Naquele ano de 1989, a escola Roberto Bolaños encerrou as aulas em novembro. Por iniciativa própria, os concludentes do segundo grau decidiram encerrar o ano com um baile de formatura, na segunda quinzena de dezembro. Não era algo comum na época, e por isso mesmo se tornou um acontecimento na então provinciana cidade de Fortaleza, no Estado do Ceará.

Álcool era proibido, devido a acordo dos pais com o buffet. Mas isso não impedia que a bebida entrasse, escondida em mochilas, bolsas femininas e até mesmo em bolsos de calças.

Vejam Rodrigo, que acabou de passar pelo portão gradeado, entre duas colunas de mármore. Alto, rosto suave, olhos verdes — ninguém imaginaria que ele trazia, nos bolsos da calça jeans justa de cintura alta, duas garrafinhas de uísque Natu Nobilis, furtadas do bar do pai.

Ou Mauro, cabelos castanhos em corte mullet, chegando agora na festa, descendo do banco de passageiros de um Chevette. Ninguém imaginaria encontrar em seu bolso uma carteira de cigarros Carlton.

Ou ainda Leonardo, cabelos ondulados castanhos, relógio digital Casio no pulso. Quando o vemos, aproximando-se da roda de amigos no meio do salão coberto, não imaginamos que ele traz dentro da carteira Ocean Pacific, no bolso traseiro da calça jeans, um preservativo. E, mais importante ainda, ele traz na cabeça um nome: Renata.

O baile começara há duas horas, e a bebida clandestina já circulava por todas as mãos e bocas.

E nem só de bebidas se fartavam as bocas. Em cantinhos escuros, já haviam começado os primeiros beijos roubados. À medida que a bebida circulava, e a música soltava os corpos, os beijos iam saindo das sombras, descortinando-se sob as luzes.

Troca de salivas nos beijos. Saliva que ia para a borda dos copos, e que se juntava à bebida que caía no chão, derramada pelo ímpeto dos jovens e pela embriaguez cada vez maior.

No chão, a bebida se deslocava, escorrendo, cedo ou tarde, para os ralos.

No subsolo escuro, a bebida, impregnada da saliva dos desejos que pareciam se impor a qualquer preço, escapava por um furo no cano, acumulando-se em uma poça lamacenta.

No início do salão, impossível não notar a presença de cinco garotas, de pé, em círculo. Usavam vestidos trapézio, sandálias Melissa, chapéus verde e azul de aba virada da Company, tinham os cabelos longos repicados dos ombros para baixo, parecendo, às costas, a letra “V”. Nos lábios, batom boka loka. Elas chamavam a si mesmas de O Clube das Cinco Melhores. As cinco mais bonitas, mais glamorosas, mais bem-feitas garotas da escola. Eram o juízo que tinham de si mesmas, e ele era compartilhado pela maior parte do colégio, mesmo pelas invejosas — sendo a inveja, afinal, uma forma invertida de aprovação.

Acostumadas a serem admiradas, e tendo-se posto de pé no início do salão somente para isso, elas estranharam quando, entrando no salão, César — cabelos lisos escuros, tênis All Star de cano longo — passou direto por elas, sem olhar para os lados.

Nenhuma delas trocou palavra sobre isso — para elas, César não valia o esforço —, mas um olhar de soslaio para ele — e um entre elas — dizia tudo: haviam passado cinco horas se arrumando, gastado uma fortuna com vestido, cabelo, sapatos, maquiagem, lingerie, e até mesmo pulado o jantar para afinarem os quadris — e quem aquele César era para lhes negar um olhar guloso? Olhar a que todas já estavam acostumadas?

Mal sabiam elas que naquela noite César só tinha olhos e pensamentos para uma única garota: Renata. Contemplava-a agora: o cabelo ruivo picado, o corpo magro e bronzeado coberto por uma calça fuseau preta e blusa de manga morcego azul, sentada em meio à roda que incluía Leonardo, Rodrigo, Mauro, e à qual César veio se juntar.

As danças, a música, as risadas — tudo isso criava barulho, alto o suficiente para abafar o murmurinho abaixo, no subsolo, onde as bebidas derramadas, no poço que se formava, começavam a borbulhar.

Nas caixas de som, começou a tocar “Together Forever”, de Rick Astley. Renata pulou da cadeira e, segurando Leonardo pela mão, disse, apontando com a cabeça para a pista, em uma área aberta ao lado do salão:

— Vamos.

Ele permaneceu imóvel por alguns segundos, olhos na parede. Então, ergueu-se e, entrelaçando a mão na dela, seguiu-a à pista, não sem antes dizer:

— Só uma dança.

César seguiu-os com os olhos. A meio caminho, Renata olhou para trás — e ele podia jurar que via no olhar dela, fitando-o, deboche.

Mauro passou a comentar sobre “De Volta para o Futuro 2”, que estreara nas salas no último fim de semana. César só ouvia trechos isolados da conversa — “Vocês já pensaram que em 2015 os carros talvez voem?” — enquanto via Renata e Leonardo começarem a dançar, um de frente para o outro.

No início do salão, o Clube das Cinco Melhores tinha sua vingança contra o despeito de César. Ao lado delas, passava Synara, de cabelo com franjinha e vestida em calça baggy e camisa da Pier. Ela terminava o colegial tendo mantido a virgindade e, acreditem-me, isso não fora fácil. Esbelta, de olhos verdes e pernas torneadas, não lhe haviam faltado pretendentes. Elas os rejeitara, um a um. Católica, mantinha-se firme no voto de castidade, guardando-se para um futuro marido.

Isso, claro, só a tornava ainda mais cobiçada pelos garotos. E, na mesma medida, invejada pelas garotas — em especial as que, tendo cedido a mais de uma investida, haviam pouco a pouco perdido seu valor no mercado de carne viva. Era o caso das garotas do Clube das Cinco Melhores.

Agora, enquanto Synara lhes passava ao lado, uma delas comentou, em voz alta o suficiente para que a outra ouvisse:

— Promoção de calças baggy no centro da cidade?

Synara tentou ignorar. Esforçou-se para aparentar confiança enquanto cruzava o salão rumo à roda onde estavam César e outros.

Ao chegar, ela sentou-se e, olhando para os lados, perguntou por Renata.

Rodrigo apontou para a pista de dança. Renata e Leonardo dançavam em ritmo lento, um junto do outro, ao som de “I´ll Be Over You”, de Toto.

Synara estranhou aquilo. Afinal, Renata e César paqueravam há semanas.

Ela só percebeu o que ocorrera ao captar, por cima do ombro direito de Leonardo, de costas, um olhar de Renata para César. Ela conhecia aquele olhar: Renata o usava quando dispensava garotos abaixo de seu padrão de exigência.

Renata brincara com César. Dera-lhe ilusões. Agora Synara percebia que a amiga usara César só para se valorizar perante Leonardo.

Na pista, a música parou. Após se separaram, Renata e Leonardo fitaram-se por alguns segundos, os braços de um sobre os do outro. “Cherish”, de Kool & Gang, começou a tocar. Os demais casais começaram a dançar. Renata e Leonardo continuaram parados, fitando-se. Então, ele a envolveu pela cintura e beijou-lhe os lábios.

Num ímpeto, César ergueu-se da cadeira e cruzou o salão, no sentido inverso ao da pista de dança. Synara seguiu-o.

Estivesse menos preocupado, César teria percebido, à sua direita, no chão, uma substância gosmenta escura que começava a sair pelo ralo. Substância que também saía pelos demais ralos e pelas portas dos banheiros…

Synara encontrou César encostado ao muro que dava para a rua.

Ao redor, casais se agarravam. Um deles, ao lado de César e Synara.

— César…

Ao lado, o casal que se agarrava não viu a substância gosmenta acercar-se deles, arrodeando-os…

— … ela está sendo uma sacana. Não ligue…

Um berro perto deles. O casal se separara. Fitavam o chão sob os próprios pés.

— Que nojo — disse o rapaz, ao perceber que pisavam sobre a substância gosmenta.

— Eu senti algo morder minha perna — disse a garota, a voz trêmula.

Por alguns segundos, os quatro só observaram, enquanto, a olhos vistos, a substância gosmenta aumentava de extensão.

Então, aconteceu. A substância projetou-se em direção ao rapaz, grudando-se no calcanhar dele — e a pele dele ressecou-se, como se ele tivesse chegado aos 120 anos em segundos. Um grunhido saiu de sua boca, antes que ele caísse ao chão — a pele do rosto chupada, os olhos afundados em covas proeminentes, as roupas folgadas no corpo agora esquelético.

A garota gritou. Os que estavam próximos ouviram. Mas já era tarde demais.

Saindo dos ralos, das cavidades, das calhas, das pias e dos sanitários dos banheiros, a substância gosmenta espalhava-se pelo buffet. E cada um que ela tocava envelhecia até a morte, em segundos.

César percebeu de imediato o que acontecia. De algum modo, ele sabia reconhecer a punição que caía sobre os pecadores. Abarcando Synara pelos ombros, forçou ambos a se ajoelharem.

— Não abra os olhos! — ele disse. — Não interessa o que acontecer, não abra os olhos!

Assim, de olhos fechados, eles apenas podiam ouvir os sons difusos, misturados, de gritos e corre-corre.

Não viram quando seu grupo, ao tentar fugir rumo ao portão, foi cercado pela substância, que lhes envolveu as pernas. Em segundos, eles caíam ao solo, cadáveres esqueléticos, os ossos quebrando-se sob a pele.

Também não viram quando as garotas do Clube das Cinco Melhores, sem reação, foram cercadas pela substância — e então, num único movimento, cobertas por ela. De dentro da bolha que se formou, ouviram-se gritos. Quando a substância retrocedeu, só restavam das garotas pó de ossos, que o vento espalhou.

Tampouco César e Synara viram quando os demais, ao perceberam o que ocorria, correram rumo ao portão que levava à rua — sua única esperança de vida. No caminho, alguns caíram, sendo então pisoteados pela massa em fuga. Os que chegaram lá deram com um portão fechado. Da janela da guarita, pendia o dorso do cadáver envelhecido do porteiro. Alguns tentaram pular o muro — apenas para descobriram que a substância gosmenta já ocupara o topo, os escaladores então caindo ao solo, mortos.

E assim a substância gosmenta começou a dar conta de todos. Alguns, pela putrefação acelerada. Outros, pela corrosão, até os ossos virarem pó. A cada vítima, a substância crescia, alargando-se, engrossando — até que parecia ocupar todo o buffet, os jovens e garotas engolidos por ela como que por um mar turbulento.

Até que não restava mais nenhum.

Então, a substância começou a se diluir. Tornou-se menos sólida. Logo se desfez em pequenas poças de água que escoaram pelos ralos. Em alguns segundos, o chão estava seco.

Mesmo após os gritos terem cessado, César e Synara continuaram de olhos fechados, agarrados um ao outro. Só tiveram coragem de abrir os olhos quando a polícia chegou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As Lições do Passado

 

Qualquer um que viva na sociedade contemporânea tem conhecimento de uma de suas mais acentuadas tendências: o fascínio pelo moderno, pelo novo — por tudo, enfim, que seja up-to-date.  

Basta reparar, por exemplo, no uso da tecnologia: antes restrita a círculos profissionais, agora é item de uso ordinário.

Esse fascínio pelo novo também se manifesta no culto à juventude, tão presente na cultura de massa e na onda fitness, e que se baseia na suposição de uma idade mágica entre os 20 e os 30 anos.

É fato reconhecido, aliás, que o adolescente e jovem adulto médio dos dias de hoje conhece escassamente o passado, mesmo em suas áreas de interesse. O tempo dos jovens é o tempo da cultura de massa, das redes sociais, do Youtube — nos quais as tendências e os ídolos mudam em poucos meses ou mesmo semanas.

Compare-se os filmes dos 1970 e os de hoje: antes, os protagonistas (e os atores que os interpretavam) tinham em sua maioria mais de 35 anos; hoje predomina o protagonista jovem adulto, adolescente ou criança.

O fascínio pelo novo não se limita porém à tecnologia ou cultura. No debate público, propostas que prometem “avançar” a sociedade — legalização do aborto e das drogas, criminalização de opiniões tidas como preconceituosas etc. – são cercadas por aura quase mística, e quem ousa apontar equívocos em tais projetos é acusado de “reacionário” e, termo mais em moda nesses dias radicais, “fascista”. Policy makers se sentem lisonjeados ao serem chamados de “progressistas”, enquanto rejeitam como ofensivo o termo “conservador”.

No debate público, os formadores de opinião concedem aos progressistas o benefício das boas intenções — enquanto lançam aos conservadores a suspeição imediata de interesses ocultos, até que provem o contrário.

Esse culto ao novo (como acontece com cultos em geral) ampara-se na simplificação excessiva. Desconsidera as nuanças. Lança o facho de luz sobre um único aspecto, relegando tudo o mais às trevas.

Mas, a verdade oculta nas sombras é: em tudo devemos algo ao passado. Nossa língua, nosso modelo político, nossa religião…. Em cada um de nós estão presentes os traços gerais da cultura em que nascemos, crescemos e vivemos — e todos remetem ao passado.

A Psicologia inclusive reconhece que a história familiar, mesmo a de gerações pregressas ao nascimento do indivíduo, exerce influência importante sobre a conduta humana. Até mesmo o caráter de um povo, ou seja, seus traços distintivos, remete à sua formação e evolução — o que pode ser comprovado na leitura atenta das literaturas nacionais. Nada é plenamente compreensível a partir do atual, do imediato; mas somente com visão retrospectiva, a mesma que o homem moderno minimiza ou mesmo rejeita.

O homem moderno que menospreza o passado é como um peixe que menosprezasse a água que o rodeia. Agindo assim, retrocede — embora se considere evoluído e rotule os que prestam contas ao passado como “conservadores” ou “reacionários”. Mal sabe ele (sequer suspeita) que menosprezar o passado, o antigo, o arcaico é perder aquilo que o ser humano tem de único, se comparado às demais espécies animais.

De fato, somente a espécie humana é capaz de registrar suas experiências e transmiti-las a outrem. Este senso histórico, por assim dizer, ajuda-a não repetir os mesmos erros. O acúmulo de experiências permite ainda realizações grandiosas demais para uma única geração. Dizemos que grandes inventores criaram artefatos ou elucidaram processos da natureza — mas o trabalho deles só foi possível por conta dos registros acumulados pelos que os antecederam. Não é exagero considerar o senso histórico como uma das vantagens humanas decisivas em relação às demais espécies animais.

O repúdio ao passado é o repúdio a esse legado humano único: o acúmulo de lições e valores por meio da História. Ao tentar suplantar o passado, relegando-o como se ele jamais existira, o moderno ou progressista opta — para usarmos uma figura de Ortega y Gasset — por descer e agir como orangotango. É uma postura anti-humanista, obscurantista.

Como uma postura assim pode ter se disseminado na sociedade brasileiro, a ponto de entranhar-se no debate público?

Isso só foi possível porque a base de valores tradicionais de nossa sociedade já está em alguma medida enfraquecida — já por processos naturais de modernização, já (e isso é o mais grave) por processos implementados deliberadamente por agentes de mudança social. Estes últimos, imbuídos de Marxismo cultural, estão a serviço de uma “guerra cultural”, cujo objetivo é a destruição dos valores greco-cristãos sobre os quais nossa sociedade foi constituída.

Esses agentes do progresso, com presença na educação e nas políticas sociais, constroem um passado imaginário, falsificado, que não merece estudo sério ou reconhecimento. Expostas a isso, as novas gerações crescem num presente constante, incapazes sequer de imaginarem todo o universo de referências que lhe foge do alcance. Se os jovens de ontem eram ingênuos por acreditarem numa História repleta de heróis e seus grandes feitos, os de hoje são cínicos justamente por não acreditarem mais nisso. Acham-se “críticos” aos acreditaram (de modo ingênuo) numa História em que uma burguesia onipresente impediu, a todo instante e a qualquer propósito, a Pasárgada prometida pelo marxismo, essa religião de ateus.

Num contexto assim, no Brasil de hoje, a quem cabe defender o legado humano?

A nós, conservadores.

Afinal, o conservador, livre da moda de menosprezar o passado, está apto a incorporá-lo no presente, reforçando o papel do homem civilizado e mostrando-se assim à altura do legado compartilhado pela sociedade humana.

No Brasil de hoje, ser conservador é a atitude mais digna que um ser humano pode ter.

Minto: é a única atitude digna que um ser humano pode ter.

Em Busca de Emprego

A situação anda difícil e, não bastasse estar desempregado, Juvenal ainda tinha que aturar as cobranças da esposa:

“Fica dormindo nessa rede enquanto eu cuido da casa.” O gato da casa, deitado a um canto, acordava com os ralhos da mulher. “E isso porque tá devendo dinheiro pra todo mundo. Tanto homem por aí e fui terminar com um lixo desses.”

“Olha como fala comigo, mulher”, dizia Juvenal enquanto se balançava na rede.“Mais dia, menos dia, eu me enfezo. E aí…”

“E aí o quê?” A mulher parava de varrer o chão por alguns segundos.“Tu não passa de um pamonha”.

“Cuidado, mulher…”

“Se não traz dinheiro, vai cuidar da casa. Anda”, e ela brandia a vassoura, “pega, vai varrer, vai…”

“Ficou doida? Homem que é homem não faz tarefa doméstica.”

“Homem que é homem traz dinheiro pra casa.”

“Emprego é pra gente com pouca inteligência, mulher. Gente simplória. Eu nasci pra coisa complicada.”

Mas a esposa continuou a aperrear. Para voltar a ter sossego, Juvenal decidiu procurar um emprego.

Depois de mandar seu currículo para todos os locais possíveis, algumas empresas começaram a ligar de volta, chamando-o para entrevistas.

A primeira foi em uma loja de artigos de informática.

“Desculpe, senhor Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz franzino com óculos, “mas o senhor não é qualificado o suficiente para a vaga”.

“Como assim? Eu tenho até faculdade”.

“Faculdade de Administração”.

“Onde eu aprendi gestão, organização, controle de estoque-“

“Somos uma loja de informática, senhor Juvenal. O senhor sabe o que é um chip de memória?”

Juvenal pensou por um segundo antes de falar:

“Tem a ver com batata frita?”

“Chip, senhor Juvenal. Não chips”.

“Ih, então não sei.”

“Memória RAM? Transístor? Hard drive?”

Juvenal pulou da cadeira. “Eu sei o que é um tablet! Juro!”

A segunda entrevista foi em uma revendedora de automóveis.

“Infelizmente, seu Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz de cabelo curto espetado, “o senhor é qualificado demais para a vaga”.

“E isso não é bom?”

“Precisamos, seu Juvenal, de vendedores que não sejam muito qualificados. Ou eles ficam aqui só alguns meses, até arranjarem emprego em outro lugar.”

“Não dá pra dar um jeito?”

“Com essa faculdade de Administração no seu currículo, seu Juvenal, fica difícil dar um jeito…”

Para a terceira entrevista, em uma mineradora,  Juvenal tirou do currículo a menção à faculdade.

“Seu currículo é impressionante”, disse a entrevistadora, uma morena de corpo bem-feito vestida em um terninho. “Mas pra ter certeza de que você é o que procuramos, eu preciso fazer algumas perguntas.”

“À vontade.”

“O senhor e sua mulher se dão muito bem?”

“Nós nascemos um pro outro.”

“Você pode ser sincero conosco, Juvenal”.

“Estou sendo, moça.”

“E o senhor é financeiramente estável? Ou tem dívidas?”

“Não devo nada a ninguém, moça.”

“Bem, neste caso não há mais o que pensar”, ela disse, fechando a pasta sobre a mesa.

“O emprego é meu?” Juvenal sorriu, já antecipando a cara da esposa assim que ele contasse a nova.

“Não”.

“Não?”

“Seu Juvenal, mineração  é um emprego muito pesado.”

“Imagino.”

“Ao longo dos anos, descobrimos que só permanecem nele dois tipos de empregados.”

“Quais?”

“O que estão em crise no casamento, e que por isso não querem ficar muito tempo em casa. Ou os que estão endividados. Nenhum dessas situações é seu caso.”

“Bem”, disse Juvenal, disposto a abrir o jogo, “na verdade-”

Antes que ele concluísse, a entrevistadora se levantou da cadeira e, sorrindo, estendeu-lhe a mão.

“Você é um exemplo de vida feliz, Juvenal. Assim que sair daqui, chegará em casa e sua esposa estará à espera, com o jantar pronto, cheio de carinho e amor. Parabéns.”

Assim que a esposa soube que Juvenal voltava de mais uma entrevista sem emprego, tentou atingi-lo como um copo de vidro. Ele se desviou e o copo bateu na parede, espatifando-se.

“Homem inútil. Bem que mamãe me avisou. Pois hoje vai ficar sem jantar, que é pra aprender.”

Nisso, algo mudou na fisionomia de Juvenal. O cenho franziu, os lábios se contraíram  um contra o outro.

Por que, pensou, submetia-se a isso? Ele, o dono da casa? Aquela megera pensava que era fácil achar um emprego em meio à crise? Estava na hora de ela aprender. Sim, ele iria ensiná-la. E agora mesmo.

Cerrando os punhos, ele caminhou rumo à esposa, a passo firme, decidido. A mulher recuou um, dois passos, até ser obrigada a parar com as costas rente à parede da cozinha.

Ele se aproximou dela. Ela fechou os olhos, esperando pelo bofete. Até o gato deles, parecendo prever o pior, correu para o quintal pela porta aberta da cozinha.

Então, Juvenal arrancou o avental da esposa e, colocando-o nele próprio, aproximou-se do fogão, em cujas panelas o jantar estava em preparo.

“A partir de hoje, mulher, eu cuido da casa e você trabalha. Esse negócio de emprego é complicado demais pra mim.”


Gostou? Então, não deixe de conferir aqui livros com crônicas de grandes autores brasileiros.

Meu amigo Roller Coaster

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Deixem que eu lhes conte do meu amigo Roller Coaster.

Claro, começo pelo nome. “Roller coaster” é a palavra em inglês para “montanha-russa”. Mas no caso de meu amigo, ela tem outro sentido. Na verdade, não é o nome dele de fato. É um apelido que ele escolheu para si. A opção por essa palavra, me disse o próprio, foi porque ela remete, de modo onomatopaico (meu amigo tem uma fina sensibilidade literária), ao inseto conhecido popularmente como rola bosta.

Trata-se do escaravelho, na verdade. Tem esse apelido porque é comum vê-lo transportando fezes sólidas, de bois, cavalos, carneiros etc. O movimento dele, aliás, lembra de fato uma montanha-russa: ele vai rolando as fezes, e muitas vezes elas caem encosta abaixo; mas o intrépido rola bosta sempre as alcança de novo.

Escolher como apelido o nome de um inseto exótico assim é esquisito, mesmo para um hipster, como meu amigo. Quando lhe perguntei o porquê, ele me explicou: o rola bosta ajuda na preservação do solo. Isso mesmo, esse pequeno inseto, quem diria, tem um papel ecológico.

Esqueci de dizer que meu amigo Roller Coaster, como todo hipster, não mede esforços para impedir o aquecimento global. Prega a favor de uma sociedade sem consumo de carnes – afinal, o gado precisa de muita área verde para pastar. Defende as energias renováveis. Assiste ao documentário do Al Gore toda semana. Afinal, nenhum hipster (ou rola bosta) que se preze irá jamais se omitir da missão de salvar nosso planeta.

Curiosamente, meu amigo Roller Coaster vive em churrascarias de rodízio. E dirige um carro a gasolina. Um daqueles grandes, que consomem muito combustível, mas impressionam as mulheres.

Algum desavisado o chamará de hipócrita. Eu no entanto sei a verdade: meu amigo é humilde demais para tentar se sobrepor aos que, desprovidos da mesma sabedoria que ele, continuam, dia a dia, a destruir nosso planeta. Ele sabe que é preciso ser tolerante com as limitações alheias. Assim, força-se a viver como os demais, numa tentativa de compreendê-los, estimá-los, olhá-los em um mesmo nível, e não acima – tocante exercício de empatia que só aumenta minha já grandiosa admiração por ele.

Que meu amigo, apesar dessa humildade, seja superior aos elementos médios da espécie humana, tive-o prova quando ele resolveu, em definitivo, a polêmica que até então dividia a comunidade científica: a de saber se o aquecimento global é causado, ou não, por ação humana. Na verdade, essa polêmica continua – mas só porque os cientistas são arrogantes demais para consultar meu amigo Roller Coaster. Tivessem-no feito, e eles lhes diria, sem sombra de dúvida, sem um momento sequer de hesitação, que o aquecimento global é causado, sim, por ação humana. E quem diz o contrário, acrescentaria, é um imbecil.

Um dia eu perguntei a meu amigo Roller Coaster como ele, um publicitário, tinha conseguido resolver de uma vez por todas uma questão científica tão complexa. Estranhamente, ele mudou de assunto. Creio que meu amigo seja generoso demais para mostrar junto a mim uma cultura científica que, de tão vasta, e ainda mais conquistada de maneira autodidata, certamente me humilharia.

De fato, por mais que eu odeie admitir, eu o invejo. Por sua cultura científica. E mais ainda mais por sua bravura moral, da qual agora faço questão de falar.

Quantos ecologistas conseguem, engolindo seus escrúpulos, penetrar no campo adversário – como meu amigo fez? Ele, que não só trabalha em uma empresa de mineração, mas tem lá um cargo de chefia? Ele, que em nome de um bem maior – a presença estratégica no campo inimigo -, aceita o fardo de trabalhar, dia a dia, contra suas próprias convicções?

Eu imagino o quanto meu amigo sofre, todo fim de mês, quando cai em sua conta bancária o salário ganho às custas da destruição do solo – o mesmo solo pelo qual ele e o rola bosta tanto lutam. O quão sujo ele não deve se sentir, quando usa esse dinheiro para pagar o aluguel de sua cobertura na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou a viagem anual ao exterior, ou os apetrechos da bicicleta importada. Essa tristeza, essa angústia deve consumi-lo tanto que nenhum de nós pode criticá-lo por se entregar aos vinhos (entregues por um clube de assinatura), ao uísque, às mobílias caras, à comida gourmet. A vida de meu amigo não é fácil, quem sou eu (ou você, leitor) para julgar alguém que tanto se sacrifica pela humanidade?

De minha parte, só posso admirar meu amigo Roller Coaster. Assim como o inseto que lhe dá o apelido, ele aceita com hedonismo o fardo de rolar, dia após dia, a bosta dos outros.

Um filme satânico

Por Douglas Lobo

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Por ocasião da estreia de “A Bruxa” (The Witch, EUA, 2016), o Templo de Satã, maior organização satanista do mundo, promoveu nos Estados Unidos sessões com o filme. Um dos líderes da associação chegou a classificá-lo como “uma experiência satânica transformadora”.

Esse entusiasmo não é de surpreender.

Na superfície, “A Bruxa” parece uma crítica à repressão religiosa. Essa aliás a leitura de seus admiradores, que viram no drama da família calvinista da Nova Inglaterra um microcosmo da dominação patriarcal com base na religião, semelhante ao dos cultos e das seitas protestantes de hoje em dia.

Não faltam elementos que endossam essa interpretação. O ambiente familiar retratado é de obediência cega à religião, e de submissão completa dos filhos aos pais. A bruxa é um rumor, uma suspeita, em torno da qual as regras se impõem com força ainda maior aos subordinados, numa metáfora de como as religiões podem usar o temor de Satanás com pretexto para aumentar seu poder.

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Seguisse nessa linha, o diretor e roteirista Robert Eggers teria criado um filme interessante, no estilo de “A Vila” (2004), de M. Night Shyamalan. Bebendo da tradição fantasmagórica da Nova Inglaterra (Hawthorne, Poe), “A Bruxa” é um terror para adultos, com uma sofisticação pouco comum no gênero. Os diálogos têm um quê de autenticidade, já que reproduzem trechos da tradição oral daquela região dos Estados Unidos, naquele período histórico.

Porém, a diversão acaba quando o filme se aproxima do fim. Aí percebemos, por meio de um twist, sua verdadeira, chocante tese: se não há garantia de salvação em servir a Deus e a suas inúmeras regras, por que não servir ao Satanás, que nos libera a diversão?

Eggers parece defender que o satanismo é o extremo lógico do fundamentalismo religioso.

É um ponto, aliás bem ilustrado no filme. Porém, na vida nossa de cada dia, há entre a conexão lógica dos fatos algo chamado mundo real. Nele, as decisões têm consequências, inclusive morais. Ao entregar-se à suposta leveza e descompromisso do culto a Satanás, abandonando a disciplina religiosa, a protagonista não o faz levada por nenhum extremo lógico irresistível: ela escolhe, consciente, deliberadamente aquele caminho – o mais fácil.

De fato, ela sequer é coagida. Há um contrato, a qual ela pode assinar ou não. Mesmo que se dê um desconto aos incidentes traumáticos que ocorrem no último terço do filme, e que podem ter levado a desesperada garota a buscar alguma outra família, mesmo uma satânica – mesmo assim, continua sendo uma decisão dela.

O entusiasmo do diretor com essa escolha é tão ingênuo quanto perigoso. Eggers celebra a fraqueza de sua protagonista como se fosse um mérito. Ele acredita mesmo que o mergulho dela no satanismo é apenas uma consequência lógica da repressão religiosa, e não uma decisão moral e autônoma de um indivíduo?

Talvez acredite.

Seja como for, algo é certo: o Templo de Satã tem todos os motivos para apreciar “A Bruxa”. É, no fim das contas, um filme satânico.

 

Tarantino, a sétima arte e “Os Oito Odiados”

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Por que neste filme a violência de Tarantino incomoda mais do que nos outros?

Por Douglas Lobo

Embora situe “Os Oito Odiados” no Velho Oeste, conhecido por suas paisagens, o diretor Quentin Tarantino desde o início enclausura seus personagens. Primeiro, em uma carruagem. Depois, em uma estalagem, sob uma tempestade de neve. Assim, toda a história poderia se passar na garagem de uma cidade moderna, ou em um porão, ou em uma cabana nos dias de hoje. Não parece haver nada que justifique a escolha do Velho Oeste. Mesmo a figura do caçador de recompensas, em torno da qual gira a trama, ainda existe (é profissão legalizada nos EUA, com o nome de Bail Enforcement Agent). O problema fica mais nítido quando vemos, de relance, os cenários magníficos da região. Essas curtas passagens aumentam a frustração, mostrando o filme que “Os Oito Odiados” poderia ter sido, não tivesse o diretor decidido transformar um western em um suspense na linha de Agatha Christie.

O filme começa sem ritmo, com três personagens em um diálogo com toneladas de informações, sem muito arranjo. Há um óbvio desleixo aqui: o background dos personagens, em vez de mostrado gradativamente ao longo da trama, é despejado de uma vez só, tornando o início do filme maçante. Tarantino já soube apresentar muito melhor seus personagens. Felizmente, a película encontra seu ritmo depois de uns vinte minutos. Porém, há outros problemas nesse filme, que marca um retrocesso de Tarantino em relação aos anteriores.

Os diálogos tangenciais, por exemplo. (Lembra quando os personagens de John Travolta e Samuel L. Jackson discorriam sobre o sanduíche quarteirão em Pulp Fiction? Então.) Esse tipo de diálogo, sendo uma das marcas de Tarantino, logicamente pulula ao longo do filme. São porém, em sua maioria, óbvios e forçados. Falham em prender a atenção. Com os personagens cuspindo palavras, em um ambiente fechado, chega uma hora em que nos sentimos como em uma festa barulhenta, loucos para sair sob qualquer pretexto.

Mais grave ainda é a ausência de um personagem pelo qual se torcer. São todos moralmente baixos, sem uma única qualidade redentora. Não há dramaticidade em ver personagens assim se degradando mais ainda. Que todos sofram o pior – quem liga?

Quanto à violência, também marca do diretor: aparece especialmente na segunda metade do filme. Nasce de situações engenhosas, no melhor estilo Tarantino. No entanto, há algo de errado aqui. Ela parece mais intensa do que em qualquer outro filme do diretor. Certamente causa um mal estar maior. Não rimos dela, como nas películas anteriores. Porém, objetivamente, há menos banho de sangue aqui do que em Kill Bill, por exemplo. Como explicar?

Talvez isso ocorra porque o resto do filme falha em nos dar a satisfação estética necessária para que aceitemos a violência. Com Quentin Tarantino, sempre há uma negociação implícita: o diretor eleva esteticamente a plateia, que por sua vez aceita a violência explícita despejada sobre ela. É por isso que passamos pelas partes finais de um filme ostensivamente violento como “Django Livre”, por exemplo, com leveza: o filme nos elevou o suficiente para que vejamos a violência de cima e, assim, aceitemos a catarse sangrenta que o diretor construiu desde o início do filme. Em “Os Oito Odiados”, ao contrário, a violência das cenas finais nos causa repulsa, mesmo nojo, embora a intenção do diretor seja fazer rir. Mas como rir da violência se não nos é dado nada em troca? Em outros filmes, aceitávamo-la em troca de enredos bem construídos, diálogos instigantes, câmeras inteligentes – tudo que faz falta em The Hateful Eight.

No fim, “Os Oito Odiados” cruza a linha que um diretor de humor negro com toneladas de violência como Quentin Tarantino sempre se arrisca a cruzar: a do bom gosto. Porém, ele não o tinha feito até agora. Ao longo de sua carreira, o diretor sempre lidou com o trash, mas sem submeter a ele. Agora, porém, perdeu a batalha.

 

 

Para que tanta redundância?

Quantas referências aos filmes anteriores da franquia “Exterminador do Futuro” há na nova sequência da série, lançada neste ano? Contei dez, mas, como não sou daqueles fãs que sabem tudo, é provável que sejam mais. Curiosamente, a nova película pretendeu relançar a franchise; porém, em vez de novo frescor, trouxe apenas a carga já degastada dos filmes anteriores.

Recentemente, as comemorações dos 30 anos do primeiro “De volta para o futuro” trouxeram algo parecido. Ou seja, mais do mesmo: o DeLorean, o skate flutuante, as mesmas histórias de bastidores… exceto que o tempo passou, os atores envelheceram, e a força da primeira película foi diluída – em parte pelo próprio excesso de exposição da franquia, decorrente do culto que se formou em torno dela.

Curiosamente, Robert Zemeckis demorou cinco anos para convencer os produtores a bancarem “De Volta para o Futuro”. Já o primeiro “Exterminador do Futuro”, estreou como um filme alternativo, mais sombrio do que o público médio estava acostumado; ninguém acreditava em seu sucesso comercial, mas hoje bonecos temáticos para crianças e adultos podem ser encontrados em várias lojas. Por sua vez, “Caça-Fantasmas”, filme feito por um grupo de iconoclastas vindos do Saturday Night Live, tornou-se uma linha de produtos da Lego.

Será esse o destino de todas as franquias? Serem sugadas até a exaustão? Absorvidas pelo mainstream por sua força cultural, para então perderem sua força precisamente porque foram absorvidas pelo mainstream?

Parece que sim. A consolidação comercial marca o ápice da influência de um produto cultural – e o início de sua queda rumo à irrelevância. Não há como comparar, por exemplo, a força de “Star Wars” quando o filme estreou com o que se vê hoje – mesmo que atualmente haja um público gigantesco à espera do novo filme da franquia; afinal, também há compradores para fraldas, carros etc., sem que isso dê a esses produtos qualquer status cultural.

Pergunta fácil: quem ganha com esse esvaziamento cultural de obras que um dia foram relevantes?

Hollywood, claro. Afinal, a indústria depende muito de franquias. Agora mesmo a produtora Lionsgate anuncia novos filmes da saga “Hunger Games”. Em 2014, sete dos dez filmes de maior bilheteria eram sequências, remakes ou reboots. As trilogias de antes deram lugar a quatro, cinco filmes e, no caso dos Vingadores, com cada filme isolado se integrando ao filme central. Ganha a indústria, perde porém o público. Nos anos 90 Hollywood fervia com roteiros originais (os “spec scripts”), vendidos muitas vezes por autores criativos, desafiadores. Filmes como American Beauty, Thelma & Louise e Good Will Hunting foram negociados naquela década.

Hoje impera o material por encomenda, controlado desde a concepção por homens de negócios, não pelos escritores. Não por acaso, a criatividade no storytelling se refugiou na TV. Correndo o risco de soar saudosista, parece que antes Hollywood fazia seu business com um pouco mais de arte. Hoje, negócio e arte parecem se repelir mutuamente.

A seu modo, Hollywood reproduz uma característica de nossa época, comprovada nas redes sociais: a redundância. O mundo se tornou um amontoado de tribos isoladas, cada uma com suas convicções e visão de mundo próprias. Nesses guetos, qualquer opinião divergente é banida, porque quebra o senso de pertencimento grupal. Ler e ouvir o que já se sabe e com o qual se concorda de antemão tornou-se um mantra. Afinal, o novo conteúdo é desafiador, exige um alargamento de percepção, muitas vezes em diálogo com uma voz dissonante.

Natural portanto vermos os mesmos filmes várias vezes.  O interesse comercial da indústria cria um público que se fecha mais e mais para novos desafios artísticos. O cinema comercial americano tornou-se um círculo fechado, como insetos que voassem ao redor de uma lâmpada. Resta saber quanto tempo até que caiam mortos…