Tarantino, a sétima arte e “Os Oito Odiados”

hateful_eight

Por que neste filme a violência de Tarantino incomoda mais do que nos outros?

Por Douglas Lobo

Embora situe “Os Oito Odiados” no Velho Oeste, conhecido por suas paisagens, o diretor Quentin Tarantino desde o início enclausura seus personagens. Primeiro, em uma carruagem. Depois, em uma estalagem, sob uma tempestade de neve. Assim, toda a história poderia se passar na garagem de uma cidade moderna, ou em um porão, ou em uma cabana nos dias de hoje. Não parece haver nada que justifique a escolha do Velho Oeste. Mesmo a figura do caçador de recompensas, em torno da qual gira a trama, ainda existe (é profissão legalizada nos EUA, com o nome de Bail Enforcement Agent). O problema fica mais nítido quando vemos, de relance, os cenários magníficos da região. Essas curtas passagens aumentam a frustração, mostrando o filme que “Os Oito Odiados” poderia ter sido, não tivesse o diretor decidido transformar um western em um suspense na linha de Agatha Christie.

O filme começa sem ritmo, com três personagens em um diálogo com toneladas de informações, sem muito arranjo. Há um óbvio desleixo aqui: o background dos personagens, em vez de mostrado gradativamente ao longo da trama, é despejado de uma vez só, tornando o início do filme maçante. Tarantino já soube apresentar muito melhor seus personagens. Felizmente, a película encontra seu ritmo depois de uns vinte minutos. Porém, há outros problemas nesse filme, que marca um retrocesso de Tarantino em relação aos anteriores.

Os diálogos tangenciais, por exemplo. (Lembra quando os personagens de John Travolta e Samuel L. Jackson discorriam sobre o sanduíche quarteirão em Pulp Fiction? Então.) Esse tipo de diálogo, sendo uma das marcas de Tarantino, logicamente pulula ao longo do filme. São porém, em sua maioria, óbvios e forçados. Falham em prender a atenção. Com os personagens cuspindo palavras, em um ambiente fechado, chega uma hora em que nos sentimos como em uma festa barulhenta, loucos para sair sob qualquer pretexto.

Mais grave ainda é a ausência de um personagem pelo qual se torcer. São todos moralmente baixos, sem uma única qualidade redentora. Não há dramaticidade em ver personagens assim se degradando mais ainda. Que todos sofram o pior – quem liga?

Quanto à violência, também marca do diretor: aparece especialmente na segunda metade do filme. Nasce de situações engenhosas, no melhor estilo Tarantino. No entanto, há algo de errado aqui. Ela parece mais intensa do que em qualquer outro filme do diretor. Certamente causa um mal estar maior. Não rimos dela, como nas películas anteriores. Porém, objetivamente, há menos banho de sangue aqui do que em Kill Bill, por exemplo. Como explicar?

Talvez isso ocorra porque o resto do filme falha em nos dar a satisfação estética necessária para que aceitemos a violência. Com Quentin Tarantino, sempre há uma negociação implícita: o diretor eleva esteticamente a plateia, que por sua vez aceita a violência explícita despejada sobre ela. É por isso que passamos pelas partes finais de um filme ostensivamente violento como “Django Livre”, por exemplo, com leveza: o filme nos elevou o suficiente para que vejamos a violência de cima e, assim, aceitemos a catarse sangrenta que o diretor construiu desde o início do filme. Em “Os Oito Odiados”, ao contrário, a violência das cenas finais nos causa repulsa, mesmo nojo, embora a intenção do diretor seja fazer rir. Mas como rir da violência se não nos é dado nada em troca? Em outros filmes, aceitávamo-la em troca de enredos bem construídos, diálogos instigantes, câmeras inteligentes – tudo que faz falta em The Hateful Eight.

No fim, “Os Oito Odiados” cruza a linha que um diretor de humor negro com toneladas de violência como Quentin Tarantino sempre se arrisca a cruzar: a do bom gosto. Porém, ele não o tinha feito até agora. Ao longo de sua carreira, o diretor sempre lidou com o trash, mas sem submeter a ele. Agora, porém, perdeu a batalha.

 

 

Anúncios